31 de dezembro de 2017

FELIZ ANO NOVO!

Resultado de imagem para feliz 2018 gif

2017: Um ano de graça (e de algumas desgraças)

Fátima continua a ser uma referência de excepcional importância para a História da Igreja e do mundo no século XX e não só.

Os cristãos sabem que, todos os anos posteriores ao nascimento de Jesus Cristo, são anos de graça para todo o mundo. Como escreve São João no prólogo ao seu Evangelho: “Todos nós participamos da sua plenitude, e recebemos graça sobre graça; porque a Lei foi dada por Moisés, mas a graça e verdade foram trazidas por Jesus Cristo” (Jo 1, 16-17).
Entre as efemérides eclesiais de 2017, é de justiça dar a prioridade ao centenário das aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria. O aniversário suscitou alguma polémica quanto à natureza teológica das ‘aparições’, que os teólogos, como Bento XVI, consideram, sem desprimor para o seu carácter sobrenatural, como ‘visões’. Outro tanto se diga sobre a explicação científica do ‘milagre do Sol’. Fátima continua a ser uma referência de excepcional importância para a História universal e eclesial do século XX e não só.
Com efeito, é inexplicável que, em 1917, três crianças analfabetas prevejam a revolução que aconteceria na Rússia, em Novembro desse ano, bem como a profecia relativa à ‘conversão’ desse país, verificada pouco depois da sua consagração ao Imaculado Coração de Maria, pelo Papa que veio do Leste. São João Paulo II foi também o protagonista da terceira parte do segredo confiado aos pastorinhos, na aparição de 13 de Julho de 1917.
O centenário das aparições marianas de Fátima está também relacionado com outras duas grandes efemérides deste ano: a canonização dos irmãos São Francisco e Santa Jacinta Marto e a vinda a Fátima do Papa Francisco.
Embora a visita se tenha limitado ao santuário mariano, foi a primeira visita do Papa Francisco a Portugal. Como já acontecera, por outros motivos, com o Papa Paulo VI, também a visita de Francisco se cingiu à peregrinação mariana. Os papas precedentes, nomeadamente São João Paulo II e Bento XVI, deram às suas vindas a esta terra de Santa Maria uma maior abrangência apostólica: aproveitaram para promover vários encontros pastorais, nomeadamente em Lisboa e no Porto. O Papa Francisco, que privilegia as viagens a países do terceiro mundo, quis assim deixar claro que, por assim dizer, não vinha a Portugal, mas apenas a Fátima. Talvez o tenha feito para que este precedente não possa ser invocado por outros países europeus, certamente desejosos da sua visita apostólica.
O centenário de Fátima, a canonização dos jovens Francisco e Jacinta Marto – são as primeiras crianças não mártires a serem canonizadas pela Igreja católica! – e a vinda do Papa Francisco a Portugal são, sem dúvida, grandes graças recebidas neste ano que agora termina.
Entre as desgraças de 2017 há que considerar, certamente, a tragédia dos incêndios que, por duas vezes, fustigaram o nosso país, causando mais de cem vítimas mortais. Não vale a pena insistir na incúria do governo e na manifesta insensibilidade do ausente primeiro-ministro, a banhos no estrangeiro, compensada pela solicitude e generosa presença do chefe de Estado. Estes dramáticos acontecimentos provaram, uma vez mais, a falência do Estado social e a necessidade da suplência da Igreja, através das suas instituições de solidariedade social, a nível local, regional e nacional.
Entre os muitos apoios que avultaram por ocasião desta terrível calamidade que, para além de vidas, destruiu as casas e haveres de muitas famílias, bem como empresas e explorações agrícolas, importa salientar a campanha promovida pela Igreja, a nível paroquial e diocesano, para a recolha de fundos, a acção desenvolvida junto das populações afectadas pelas respectivas comunidades eclesiais, bem como a resposta solidária de muitos organismos católicos.
Acção essa que prossegue, de forma discreta e muito eficaz: como a agência Ecclesia noticiou no passado dia 26, muitos jovens do Porto, Coimbra, Braga e Montemor-o-Novo, afectos à prelatura do Opus Dei em Portugal, realizaram recentemente acções de voluntariado nos concelhos mais castigados pelos incêndios: Serpins, Mangualde, Oliveira do Hospital e Seia. Ainda a propósito desta estrutura eclesial, análoga aos ordinariatos, recorde-se que foi em 2017 que foi eleito Mons. Fernando Ocáriz, que o Papa Francisco confirmou e nomeou como novo prelado.
Outro acontecimento de grande relevância eclesial e, sobretudo, ecuménica, foi a evocação dos quinhentos anos da reforma de Lutero. Embora persista a separação, passos muito significativos já foram dados, em ordem à desejada união de todas as igrejas cristãs, nomeadamente a católica, a ortodoxa e a dita protestante.
Os refugiados são uma preocupação prioritária do Santo Padre, principalmente as minorias de outras religiões que sofrem perseguição. Assim se explica a sua recente viagem a Myanmar que, não obstante a sua escassa importância religiosa, dado o exíguo número de católicos no país, e pouca repercussão internacional, teve contudo um grande significado político.
Ainda a lamentar, ou talvez não, o desaparecimento de dois insignes prelados portugueses: D. António Francisco dos Santos, bispo do Porto, e D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal. Se tais mortes foram uma perda para a Igreja e para a sociedade portuguesa, para ambos foi, de acordo com a esperança cristã, uma grande graça: a da sua chegada definitiva à casa paterna! Por este motivo, os primeiros cristãos não consideravam o falecimento como o fim da existência terrena, mas como o seu verdadeiro nascimento para a eternidade, o seu próprio natal!
Feliz Ano Novo!


Fonte: Observador

30 de dezembro de 2017

Os Jesuítas em Portugal: um projecto do tamanho do mundo

Foto de Nova Portugalidade.


Aliada à Coroa e à ambição de espalhar a fé cristã pelo globo, a Companhia de Jesus foi, talvez mais que qualquer outra instituição, responsável pela difusão mundial da civilização portuguesa. Dia 19, no Palácio da Independência, a NP explora com a Professora Maria de Deus Manso, especialista na Companhia, o seu papel cimeiro no processo imperial português e na construção da Portugalidade.


29 de dezembro de 2017

Monarquia e Democracia Directa



Uma Monarquia é a forma mais genuína de governo à luz do direito natural, com o Rei à cabeça, como chefe de Estado, exercendo o seu Poder Moderador, e sobre a forma de governo de uma Monarquia Parlamentar, que assenta na legitimidade democrática, pois os órgãos que efectivamente exercem o poder político conquistam a sua legalidade e legitimidade das eleições por sufrágio directo e universal, mas que deverá ter listas abertas às forças vivas da sociedade. Assim sendo, originariamente, o poder reside no Povo, contudo exerce-se sob a forma de governo monárquico.
Depois, o primeiro-ministro deterá o poder executivo, pois o Monarca adjudica o poder e permanece apenas com a posição de titular. Com o Poder Moderador que competirá privativamente ao Rei, o Monarca será a chave de toda a estrutura política, como Chefe de Estado e Chefe Supremo da Nação, e incansavelmente guardará a manutenção da independência e estabilidade dos mais Poderes Políticos, e será o património mais genuíno da Identidade Nacional.

Como se pode constatar analisando as mais evoluídas Nações contemporâneas que adoptam como regime a Monarquia, este regímen é o mais modelarmente conciliável com o respeito por direitos e garantias de todos, até porque das 135 repúblicas que existem no Mundo apenas 53 são democracias, pelo que república está muito longe de ser sinónimo de democracia. Aliás, sete dos dez Países com maior índice democrático são Monarquias, com a Noruega em 1.º lugar, seguida da Suécia em 2.º e da Dinamarca em 4.º – só para nomear alguns casos.
No Reino de Portugal já havia democracia directa, mesmo antes da Monarquia Constitucional, desde o princípio do tempo português, pois as liberdades municipais eram uma regra essencial de governação. O papel democrático dos municípios tornava-o em real representante de toda a comunidade local diante do Rei que valorizava o apoio popular. Esses conselhos municipais compostos por ‘vizinhos’ tinham capacidade política e um enorme conjunto de liberdades fundamentais, regalias e seguranças, normalmente consignadas em carta de Foral – que elencava as matérias relativas à liberdade das pessoas, ao direito de asilo, à defesa dos direitos em juízo, à tributação, à inviolabilidade do domicílio – tudo isto em plena Idade Média. A importância destes concelhos era tal que eram enviados representantes às cúrias extraordinárias, as Cortes, tendo assim participação na governação.
Hoje é isso que queremos: Monarquia e Democracia Directa, um Rei coadjuvado pelas forças vivas da Nação!

Miguel Villas-Boas

28 de dezembro de 2017

O regresso que urge

1865ca-maria-pia-savoy-2.jpg


Existe na generalidade dos povos, um recôndito desejo reverencial pela espectacularidade do poder e em Portugal, a rainha D. Maria Pia foi quem talvez melhor compreendeu a essência das funções que lhe estavam destinadas como consorte do soberano.

Sendo Portugal um país de escassos recursos materiais que proporcionassem a existência de um meio cortesão que pudesse equiparar-se ao das dinastias reinantes nos grandes países europeus, beneficiava contudo de um estatuto garantido pela íntima relação familiar  que colocava os Bragança no restrito grupo formado pelos Bourbons, Habsburgo e Sabóia. Profundamente interligadas por séculos de alianças matrimoniais, as casas reinantes
da Europa podiam mesmo ser consideradas como entidades onde o nome de cada uma as identificava num contexto geográfico e político, embora os laços de parentesco fossem iinvariavelmente de uma proximidade tal, que as tornavam numa única e grande família supranacional. 

O estatuto da dinastia portuguesa não advinha apenas da antiguidade da Casa de Bragança, mas também do próprio percurso histórico trilhado por um país já antigo, detentor de um desconcertante passado de glórias ainda ao tempo  testemunhadas pela posse - mesmo que teórica - de um importante património imperial no além-mar.

Se as atitudes ou a forma de reagir a contingências derivadas da sempre imprevisível situação política em galopante evolução no mundo de oitocentos, podia ser ditada pelo chamado "espírito do século", era contudo impossível impedir a manifestação do carácter das principais personalidades que eram o símbolo visível de um poder também ele em mutação.  

A rainha Maria Pia gostava daquela especial forma de exercício do poder que sempre foi, ainda é e para sempre será reconhecido, através de uma convenção tacitamente por todos aceite e que impõe a cerimónia da distância inatingível, mas que simultaneamente se aproxima das massas curiosas e sensíveis à identificação com símbolos que a todos irmana nessa cumplicidade que identifica as nações.

Esta rainha foi como uma bandeira, um hino ou uma prolixa declaração de grandes princípios e durante décadas, confundiu-se com o próprio Estado interiorizado então de uma forma por nós hoje dificilmente compreensível: era a Coroa, algo que nos nossos dias apenas poderá ser  identificável numa muito legalista e cerimoniosa Inglaterra.

Era teatral, gostava do fausto pelo que este significava de prestígio oferecido a alguém que encarnava a grandeza de uma nação. A rainha compreendeu que as massas não se impressionavam com a banalidade dos homens públicos que por entre os negócios do Estado cerziam as suspeitas cumplicidades propiciadoras de súbitos enriquecimentos que faziam erguer palacetes, angariavam numerosa criadagem e ofereciam uma bastante discutível imagem daquilo que era o gosto da época. Maria Pia de Sabóia  encarava a realeza como um palco onde os actos  se sucediam ininterruptamente, sendo todos eles merecedores de uma particular relevância imposta por um público atento e implacável crítico.

Gastava e podia ser generosa à medida do orçamento imposto pela escassez da dotação real que não era actualizada há quase meio século, recorrendo-se quando possível, aos rendimentos particulares da Casa de Bragança. Foi assim que os portugueses conheceram Maria Pia, ombreando com orgulhosas beldades coroadas do seu tempo e muitas vezes ofuscando-as com o seu porte soberano e o bom gosto que todos lhe reconheciam. Estivesse nas Tulherias ao lado de uma Eugénia de Montijo, ou na Hofburg com a prima Isabel, imperatriz da Áustria, a rainha portuguesa sabia sobressair num meio infinitamente mais opulento àquele que Lisboa conhecia.  Mesmo nos actos reservados às senhoras que num certo meio social eram obrigações naturais, a rainha fazia-se notar, estudando os locais onde se realizariam as cerimónias das quais seria o alvo de todos os olhares. Um ponto de luz, a cor ideal para o vestido com que se apresentaria, o séquito, tudo era meticulosamente preparado com a única finalidade do pleno cumprimento da obrigação imposta pelas suas funções. Filha de um agnóstico e suspeita de anticlericalismo, Maria Pia alardeava uma devoção que provavelmente se limitava aos aspectos exteriores do culto, à cerimónia imposta por mais um serviço protocolar, este sagrado e numa época em que a própria família italiana se encontrava em aberto conflito com um Vaticano que perdera o poder temporal. Ao contrário da sua nora - a futura rainha D. Amélia -, não se prendia a pensamentos profundos e a aspectos literários ou filosóficos que justificavam uma Fé em pleno século de todas as contestações e dúvidas. Se Amélia de Orleães era de uma religiosidade que hoje poderemos considerar eivada de um certo regalismo que advinha do percurso atravessado pela França natal ao longo de dois séculos, Maria Pia interessava-se pela posição que lhe competia impor no seu papel soberano, como a primeira entre as devotas e sem mais intermediários entre um distante deus e ela própria. Era a rainha e fazendo com que todos o notassem, isso bastava-lhe.

Numa Europa que iniciava o caminho da assistência social propiciada por um Estado até então afastado de preocupações tradicionalmente atribuídas à Igreja e concomitantes obras beneméritas, a função da caridade - assim se chamava a solidariedade no tempo dos nossos bisavós - era  o suprir ou aliviar das grandes desigualdades presentes numa sociedade geralmente indiferente à sorte do outro. O crescimento das cidades e o enorme afluxo de populações que abandonavam os campos, criou uma nova realidade que impôs a evolução desta caridade para algo mais permanente e que implicava a organização de estruturas e um programa de acção. Maria Pia pode ser situada num período de transição na época liberal e que entre nós conheceria na sua nora, a primeira grande impulsionadora daquilo que seria a assistência social no século XX.

"A rainha evitou a política e quando interveio, foi no estrito limite ditado pelas suas obrigações constantes no articulado constitucional - a regência -, ou, na sua conhecida reacção ao golpe de Saldanha que antes de tudo, significava aquilo que a soberana considerava ser o enxovalho da dignidade real, logo da Carta e do próprio Estado. O rebaixamento da dignidade da sua condição de rainha - e em tudo o que o conceito significa -, isso jamais admitiu".

Foi sem qualquer tipo de contestação, o elemento mais popular da família real portuguesa nas últimas décadas de vigência do sistema monárquico-constitucional. Era uma imagem perante a qual todos reverenciavam uma certa ideia  feita acerca de um esplendor que há muito se perdera, mas que nela era natural e perene.

Morreu longe de Portugal e ainda hoje se encontra injustamente exilada de uma terra, onde nem a brutalidade e maledicência republicana ousou afrontá-la. O país do qual sempre se considerou parte e os descendentes daquela gente que tanto lhe quis, merecem bem essa reparação que antes de tudo é moral.

Tenham as autoridades o sentido de Estado que tantas vezes lhes falta, repatriando a rainha Maria Pia para junto dos seus. 

Nuno Castelo-Branco

27 de dezembro de 2017

Moçambique dá lições de bom-senso e recusa terrorismo presentista

Foto de Nova Portugalidade.


Há cerca de três anos, uns quaisquer presentistas quiseram alterar a toponímia da cidade da Beira, propondo extirpar referências a figuras históricas relacionadas com a presença portuguesa, conformadora de Moçambique. Contudo, a proposta, depois de discutida, depressa foi esquecida. As ruas Mouzinho de Albuquerque, António Enes e Paiva Couceiro sobreviveram aos camartelos da memória e a essa raça de novos iconoclastas que assombram o Ocidente. No fundo, os moçambicanos mais avisados sabem que sem as chamadas campanhas de pacificação em que pontificaram Mouzinho, Enes e Paiva Couceiro, Moçambique do Rovuma ao Maputo nunca teria existido e que, em vez de um Estado, o território moçambicano estaria hoje dispersado por, pelo menos, três entidades.

O presentismo é um movimento que reivindica o direito a transportar o passado para o presente, integrando-o na agenda política actual. O presentismo é ainda mais grave do que o anacronismo, pois inscreve no seu programa a responsabilização dos vivos pelos actos cometidos por homens que viveram há 100, 500 ou 1000 anos, criminalizando-os e obrigando-os a pedir desculpas. No fundo, o presentismo é uma variante particularmente perversa de terrorismo científico, posto que visa cobrir de indignidade e condenar à morte cívica sociedades orgulhosas do seu passado.

MCB

26 de dezembro de 2017

História de um Natal diferente

O Natal, na sua versão comercial, é uma história muito sentimental, cheia de paz, de amor e de anjinhos rechonchudos, tocando harpa e cantando hossanas. Mas não foi assim há 2017 anos…

Quando ouvimos falar do Natal, é-nos sempre contada a mesma história romântica. Fala-se de Jesus bebé e do casal maravilha, Maria e José. Referem-se a vaquinha e o burrinho, com diminutivos que fazem ainda mais ternurenta a cena. Os misteriosos magos, vindos do Oriente, dão uma nota de fantasia, digna de uma megaprodução da Disney, enquanto a adoração dos pastores introduz uma nota ecológica, muito politicamente correcta, pois funde no mesmo amor o culto ao Deus-menino e a devoção pela natureza.
Esta é, por assim dizer, a versão comercial do Natal: uma história sentimental, cheia de paz, de amor e de anjinhos rechonchudos, tocando harpa e cantando hossanas. Mas esta não é toda a história do que aconteceu há aproximadamente 2017 anos …
De facto, quando Herodes soube do nascimento do Rei dos Judeus, título messiânico a que era inerente a realeza de Israel, decidiu eliminar o alegado usurpador. Ao não saber o seu paradeiro, mandou matar todos os recém-nascidos em Belém de Judá. Jesus não pereceu porque fugiu antes, com Maria e José, para o Egipto, onde ficaram algum tempo. Mas houve crianças que foram assassinadas nessa ocasião e, como morreram por Cristo, a Igreja venera-as como mártires.
Não se sabe ao certo o número das vítimas da fúria assassina do tirano, mas é de crer que foram bastantes: quase todos os que tinham nascido em Belém, naqueles dois últimos anos. José e Maria só salvaram Jesus, porque não souberam, nem puderam prevenir, a matança dos santos inocentes. A horrível morte daquelas crianças tingiu, com sangue infantil, o mistério do Natal.
Também agora, o Natal tem uma vertente dramática, muitas vezes ocultada nesta quadra festiva. O Evangelho, citando palavras de Jesus na iminência da sua paixão e morte na cruz, fala da alegria do nascimento de uma criança: “A mulher, quando está para dar à luz, sente tristeza, porque chegou a sua hora; mas, quando deu à luz um filho, já não se lembra da sua aflição, com a alegria de ter vindo um homem ao mundo” (Jo 17, 21). Mas, que acontece quando essa criatura não é sã e escorreita?!
O hedonismo moderno apropriou-se do ódio de Herodes e, todos os anos, ceifa a vida de milhares de crianças deficientes. Há países em que esses bebés já não nascem, porque a sua morte é provocada antecipadamente, por via do aborto dito terapêutico. Nas nações em que a eutanásia foi aprovada, também se pratica a selectiva eliminação dos recém-nascidos com malformações. Talvez aqueles que, num momento de desespero, decidem pôr termo à vida inocente de uma criança descapacitada, antes ou depois do seu nascimento, tenham alguma atenuante, não obstante a gravidade desse acto homicida. Mas os pais que, cientes das anomalias do filho em gestação, o acolhem com amor são, por regra, verdadeiros heróis.
Há quem pense que há egoísmo nessa atitude, porque até para o próprio menor seria preferível abreviar a sua sofrível existência. Claro que, se assim fosse, todas as vidas concebidas seriam, em nome dessa suposição, também elimináveis, porque ninguém pode garantir, à partida, que uma nova vida, física e psiquicamente normal, vai ser sempre isenta de sofrimento. Na realidade, a única forma eficaz de evitar a dor é pela eliminação da pessoa porque, onde há vida, há sempre essa possibilidade.
Por outro lado, uma pessoa incapacitada não é, necessariamente, desgraçada. Não obstante as suas penosas circunstâncias, se for amada pelos seus pais e demais familiares, estas crianças também podem ser felizes nesta vida. Mas, mesmo que a sua infelicidade fosse pela própria sofrida e consciencializada, nada nem ninguém está legitimado para suprimir a sua existência. Com efeito, a morte provocada de um ser humano inocente, mesmo que doente, é sempre um assassinato, que gravemente ofende a Deus e fere um dos princípios mais sagrados da sã convivência social.
O meu amigo Paulo e a sua mulher sofreram um terrível abalo quando souberam, pela ecografia, que a sua última filha padecia a síndrome de Down. O nascimento da Gracinha foi, contudo, um momento de felicidade, ainda que toldado pela apreensão causada pela deficiência. Mais tarde, quando começou a manifestar-se a sua personalidade, evidenciou-se a sua extrema afectividade e, até, a sua alegria.
Os pais perceberam então que aquela filha não era uma maldição de Deus, nem um castigo, mas um dom e uma bênção: se Deus lhes tinha dado aquele ser particularmente carente, era porque neles depositava uma enorme confiança. Quando uns pais se ausentam durante uma temporada e, por isso, têm que distribuir a prole por famílias amigas, confiam o mais necessitado ao casal que mais prezam. Assim faz Deus também, distinguindo os pais a quem concede esta graça.
Por exigências profissionais, o Paulo teve que viver uns tempos no estrangeiro, para onde não pôde levar a família. No seu pequeno apartamento tinha, logo à entrada, uma só fotografia: a da sua filha mais nova. Ao fim do dia, ao chegar a casa, não lhe pesava o cansaço nem a solidão porque, ao olhar para aquele retrato, sentia-se acompanhado por aquela que era, sem exagero, a alegria da família. Aliás, quando vinha a Portugal, para estar com a mulher e os filhos, a Gracinha era sempre a que mais festa lhe fazia.
Não foi em vão que morreram os santos inocentes: a sua morte por Cristo foi o seu triunfo e, por isso, a Igreja festeja-os como protomártires do Cristianismo. Também eles são Natal porque, quando o Filho de Deus nasceu para o mundo, eles nasceram para a eternidade. Quero crer que, no Céu, há uma glória especial para estes filhos predilectos de Deus, mas também para os seus pais, irmãos e para quantos os acolheram com a mesma ternura e amor com que Maria e José receberam Jesus! Santo Natal!
Fonte: Observador

22 de dezembro de 2017

Especial Dia de Reis - Visita ao Palácio de S. Bento



Para o próximo dia 06 de Janeiro, Dia de Reis, pelas 10:30, a Real Associação de Lisboa estará de volta com os Roteiros Reais promovendo uma visita muito especial, desta vez ao Palácio de São Bento, para uma viagem no tempo até à época do constitucionalismo monárquico. Tendo como pano de fundo os espaços e a História do Palácio Nacional de S. Bento, a visita servirá de mote para abordar o que foi o parlamento oitocentista, enquadrando a sua composição, funcionamento e evolução política, e a sua relação com os Reis constitucionais.

Esta visita será guiada por um nosso associado, o historiador Lourenço Pereira Coutinho, e por Miguel Sousa Lara, do Museu da Assembleia da República.

O ponto de encontro é na entrada principal e o custo da visita é de € 10,00 por pessoa, estando o número máximo de participantes limitado a 40 pessoas, sendo dada prioridade aos associados com as quotas em dia.

Para mais esclarecimentos e inscrições contacte-nos através do endereço secretariado@reallisboa.pt, pelo telefone 21 342 81 15 ou presencialmente na nossa Sede nos horários habituais.

21 de dezembro de 2017

Missa de sufrágio pelas vítimas dos incêndios - Um mundo melhor, para o futuro de todos



Associo-me inteiramente e deste modo à memória e ao sufrágio das vítimas dos incêndios que tantas vidas atingiram e tantos danos causaram em junho e outubro do ano que agora finda. A todos, familiares, vizinhos e amigos, manifesto a minha solidariedade e companhia. Também a gratidão profunda a quantos - Bombeiros e Autarquias, Estado e Forças Armadas e de Segurança, organizações sociocaritativas e de solidariedade social, dioceses e paróquias - organizados ou por si mesmo, foram e continuam a ser junto de quem tanto sofreu e dos familiares das vítimas, a expressão mais clara e efetiva do que somos e queremos ser como sociedade altruísta. Saúdo de modo especial os promotores da presente celebração, no Dia Internacional da Solidariedade Humana. 

Agradeço também a disponibilidade desta comunidade paroquial e do seu pároco, que sempre acolhem quem oportunamente deseja marcar, em espaço tão denso e expressivo, sentimentos colectivos e cristãmente inspirados. Este templo, dedicado a Santa Maria de Belém, recolhe plástica e liturgicamente o que poderemos designar com “alma portuguesa”, na evocação do melhor passado para garantir o melhor futuro. Tão solidário e criativo como foi e ainda mais há de ser. 

Por isso mesmo, os sentimentos que aqui nos trazem são repassados pela liturgia de hoje, como se celebra em tempo de Advento. Ouvimos trechos bíblicos que nos falam da grande esperança dum povo antigo na “vinda” mais sensível do seu Deus. Assim com a primeira leitura, assim com o salmo que cantámos. Assim e sobretudo com a magnífica página do Evangelho proclamado, precisamente o da Anunciação a Maria.

Reforcemos a atenção a este ponto, tão coincidente com a actual circunstância. Naquele dia uma jovem de Nazaré de Galileia, como que concentrando em si e esperança profunda do seu povo, recebeu de Deus uma resposta tão inédita como criativa: «Não temas!». E respondeu como ouvimos: «Faça-se em mim segundo a tua palavra!». Essa palavra que Maria aceitou e nela incarnou chamou-se Jesus. 

Naquele momento era só uma jovem, por um povo inteiro. Dois mil anos depois estamos nós aqui. E estais vós especialmente, os que estivestes e continuais a estar na primeira linha da recriação de quanto foi atingido pelos incêndios, em vidas, casas e haveres. Pois bem, da parte de Deus a voz será idêntica: «Não temais! Acreditai! Segui em frente na recriação de tudo, como pelo “sim” de Maria nasceu Jesus e se recriou o mundo». E pela graça desta celebração, os que partiram reviverão com Deus. E pela graça desta celebração os que ficaram refarão a vida.

Na celebração que fazemos e oportunamente em Igreja, ouvimos o trecho evangélico da Anunciação, quando Maria acolheu e corroborou o pedido divino de conceber Jesus e assim permitir que Ele fosse “Emanuel”, palavra que significa “Deus connosco”. Podemos dizer que este é por excelência o ponto cristão. Deus propõe-nos tudo e, ao mesmo tempo, quer depender de nós em quase tudo, do nosso sim, da nossa colaboração. Quando respondemos, como ouvimos à Virgem Maria, «faça-se em mim segundo a tua palavra», tudo se torna possível na ordem do bem e acontece depois.  

É precisamente esta realidade que nos garante o “Natal”. É o nascimento de Deus neste mundo, como aconteceu com Cristo e como acontecerá connosco, que herdámos o seu Espírito. Pouco ou nada podemos só por nós, tudo poderemos sim, segundo Deus. Maria cantará pouco depois, no seu Magnificat: «O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas». E São Paulo, certamente admirado com o que já sucedia com ele e outros dos primeiros cristãos, glorificaria depois a Deus «que pode fazer imensamente mais do que pedimos ou imaginamos, de acordo com o poder que eficazmente exerce em nós» (Ef 3, 20).

Estimados senhores e amigos, retenhamos a atitude de Maria diante do anúncio que recebeu. Toda a humanidade se move por aquilo que a supera e, no entanto, não pode dispensar, venha o que vier, suceda o que suceder. De verdadeiro, de bom e de belo, segundo os transcendentais que nos qualificam como seres humanos e sempre nos fazem viver e reviver, mesmo quando quase nos sentimos esmagados pelas circunstâncias.
Durante e depois dos trágicos incêndios que aqui lembramos, o mal foi grande e a dor foi muita. Mas não faltaram nem faltam gestos de grande generosidade e valentia, para acorrer, para salvar o possível, para prevenir e restaurar. Estou certo de que a generalidade desses gestos e ações foi impulsionada pelo mesmo Espírito que criou o mundo e pulsa em todos nós para seguir em frente, melhorar o que falta e recomeçar quando é preciso. Quando isto acontece, cada um repete de algum modo o que ouvimos a Maria na Anunciação, respondendo ao apelo divino: «Faça-se em mim, segundo a tua palavra». A palavra criadora e recriadora que, saindo continuamente de Deus, ecoa felizmente em tantos.

Com a Anunciação a Maria, Deus respondeu ao apelo do mundo. Com o alerta às consciências de agora, Deus continua a suscitar respostas solidárias. É assim que o Evangelho há pouco escutado ilumina e reforça as solidariedades que aparecem. Digamos convictamente, diante da boa vontade manifesta: Graças a Deus!    

Nós e a natureza - mais propriamente a “criação” de que somos a parte central e o ponto de consciência e decisão. Quando a harmonia é perfeita e o respeito pela natureza física e espiritual é um facto, tudo decorre como os Evangelhos narram sobre Jesus Cristo, as curas que fazia e as tempestades que acalmava. No Espírito de Cristo, muitas biografias nos falam de algo semelhante. O Santo Padre inspirou-se em São Francisco de Assis e no seu Cântico das Criaturas para nos oferecer a encíclica Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum.

É desta encíclica que retomo dois pontos, tão breves como importantes, para prevenir melhor futuro. O primeiro é sobre a urgente recuperação ou efectivação duma ecologia integral em que tomemos como essencial e prioritária a relação com o meio ambiente, de que somos parte - não exterior e muito menos estranha. Num país como o nosso, em que a grande maioria da população se foi concentrando no litoral, corremos o risco de nos esquecer da grandeza do território, despovoado e pouco ou mal cuidado. A antiga relação, que era imediata e vital, com a agricultura e a floresta, foi-se perdendo, e até a própria memória de propriedades e responsabilidades se foi esvanecendo em muitos casos. – Quem se lembra donde provém o que come, o que bebe e mesmo a qualidade do que respira? Quem reconhece e agradece o que a “mãe terra” lhe dá e a harmonia da criação lhe garante? Quantos nos detemos a olhar para o conjunto do território como campo a tratar no seu todo, para além dalguma excursão turística ou dum sobressalto desastroso?
 
Como adverte o Papa Francisco, natureza e sociedade são duas dimensões conjugadas do nosso existir como pessoas, isto é, seres em relação. Uns com os outros e todos com tudo o que nos rodeia e sustenta: «Quando falamos de “meio ambiente”, fazemos referência também a uma particular relação: a relação entre a natureza e a sociedade que a habita. 

Isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos. […] É fundamental buscar soluções integrais que consideram as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. As directrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza» (Laudato si’, 139).

Ainda mais do que reconstruir edifícios, temos agora de nos reedificar como sociedade mais integrada, da cidade ao campo e do litoral ao interior. Reordenando o que for preciso reordenar, acompanhando quem temos de acompanhar, sanando o que mais urgir, tanto na saúde das pessoas como nas feridas que abrimos ou deixámos abrir no fundo, à superfície e na atmosfera da terra de nós todos. 

Com isto se prende um outro ponto que retenho da encíclica ecológica do Papa Francisco, alertando para a atenção institucional que, nos vários níveis da sociedade nos garantam um verdadeiro bem comum: «Se tudo está relacionado, também o estado de saúde das instituições duma sociedade tem consequências no ambiente e na qualidade de vida humana. […] Neste sentido, a ecologia social é necessariamente institucional e progressivamente alcança as diferentes dimensões, que vão desde o grupo social primário, a família, até à vida internacional, passando pela comunidade local e a nação» (Laudato si’, 142).

Em suma e conclusão, estimados irmãos, senhoras e senhores: Sufragando tantas vítimas de tão grandes incêndios; agradecendo a solidariedade activa dos que salvaram vidas e haveres; e desses e doutros que entretanto se juntaram para uma reconstrução que não sofre improvisos nem demoras, façamos agora o que devíamos ter feito já, no sentido duma sociabilidade nova e do respeito pelo mundo natural que o Criador nos confiou. 

Regressando ao Evangelho desta Missa, há dois mil anos Deus recriou o mundo com o “sim” de Maria. Que o nosso “sim” o garanta melhor para o futuro de todos! 

Lisboa, Santa Maria de Belém (Jerónimos), 20 de Dezembro de 2017

+ Manuel, Cardeal-Patriarca  



20 de dezembro de 2017

SAR, D. Duarte Pio diz que morte e sofrimento dos fogos deste ano "não pode ser em vão"



"É preciso convencer os governantes" a "acabar com este estado de abandono do mundo rural", diz o herdeiro da Casa Real portuguesa.


O herdeiro da Casa Real portuguesa defendeu esta quinta-feira que "a morte e sofrimento" dos trágicos incêndios deste ano "não pode ser em vão", sendo preciso convencer o Governo a acabar com o abandono rural e impunidade dos incendiários. 

Na véspera do dia da Restauração da Independência, D. Duarte Pio profere esta quinta-feira, ao final da tarde, a sua tradicional mensagem aos portugueses do 1º de Dezembro, texto ao qual a agência Lusa teve acesso. 

"As minhas primeiras palavras neste findar do ano de 2017 são de pesar pelas vítimas dos incêndios da nossa floresta e para manifestar solidariedade para com os sobreviventes que viram ceifadas tantas vidas de familiares e tantos bem destruídos em seu redor. A morte e sofrimento de tantas pessoas não pode ser em vão", afirmou. 

Na opinião do herdeiro da Casa Real portuguesa, "é preciso convencer os governantes" a "acabar com este estado de abandono do mundo rural, e de impunidade das pessoas e organizações criminosas". 

"Em muitos países os incendiários são considerados homicidas e punidos como tal", comparou. 

Para D. Duarte Pio, é preciso "restaurar o interior do país com mais pessoas a cuidar do território e em particular das florestas". 

"Não basta o combate heroico das corporações de bombeiros. Temos a obrigação de agir já, com conhecimento científico e coragem política, como agiram os nossos antepassados", defendeu. 

O Duque de Bragança focou-se ainda na questão económica porque "já todos perceberam que um país com uma dívida colossal não poderá ter qualquer ilusão de independência política" e por isso pede sejam usados "com prudência os recursos" da "débil economia" portuguesa e "não os gastar de modo não sustentável". 

D. Duarte Pio congratulou-se com o facto de o 1.º de Dezembro ter voltado a merecer um feriado, lembrando que este "também marcou a vida do povo português com sofrimento". 

"A falta de solidariedade e a incerteza no futuro é maior num sistema que pode eleger populistas do que na certeza de uma Casa Real, cujo único poder resulta da identificação com a nacionalidade. Como sucedeu no 1.º de Dezembro de 1640 e como poderá suceder no futuro, se todos assim quisermos", alertou. 

Os "representantes dos Reis de Portugal poderiam ter escolhido", de acordo com D. Duarte Pio, "a via seguida por muitas famílias reais exiladas: limitar-se a viver no lugar que a história lhes reservou, mas não o fizeram". 

"Entendo que devo seguir a minha consciência e continuar a percorrer o país e o mundo a apregoar os aspectos positivos de Portugal, contando com a simpatia das populações e mesmo a contragosto de alguns", justificou. 

Fonte: CM




19 de dezembro de 2017

Toda a solidariedade com os indo-portugueses presos por celebrarem o Natal

Foto de Nova Portugalidade.


Da Índia, país que a si mesmo se chama a maior democracia do mundo, chega notícia preocupante de perseguições religiosas movidas contra a comunidade católica-portuguesa do país. Em Madhya Pradesh, foram presos por milícias de extremistas hindus 32 luso-católicos. O seu crime? Cantarem canções de Natal, o que os radicais consideraram tentativa de proselitismo. O caso é denunciado por Theodore Mascarenhas, secretário-geral da Conferência Episcopal da Índia e, como indica o seu apelido, português da Índia. Face às inaceitáveis repressões anti-portuguesas e anti-católicas, é importante que a Portugalidade se mobilize em defesa dos seus irmãos da Índia. O governo português, em particular, tem perante esta comunidade ameaçada responsabilidade histórica que não pode ignorar. Que aja, pois. Portugal, como esse gigante da Portugalidade que é o Brasil, tem o dever de mexer-se.


18 de dezembro de 2017

Xutos & Pontapés na Igreja e no Estado

Não podendo o Parlamento honrar todos os cidadãos falecidos, é razoável que reserve as suas homenagens para os portugueses que mais se distinguiram pelo seu saber e serviço à comunidade.

Há já muito tempo que não via algo tão insólito como o Parlamento aprovar por unanimidade – que, poucos dias antes, foi negada à memória de Belmiro de Azevedo – um voto de pesar pelo Zé Pedro, músico da banda Xutos & Pontapés.
Belmiro de Azevedo foi um empresário como poucos no nosso país. Criou um grupo económico que dá emprego a milhares de trabalhadores e sustenta outras tantas famílias. Esteve também na origem de um jornal de referência, que é certamente uma mais-valia cultural. Nunca pedi nem obtive qualquer favor do Eng.º Belmiro de Azevedo, que não conheci pessoalmente. Também não tive nenhuma relação com qualquer seu familiar nem, que eu saiba, com nenhuma empresa directa ou indirectamente a ele ligada. Mesmo tendo esporadicamente colaborado no Público, muitas vezes discordei da sua linha editorial. Mas reconheço que, dada a relevância nacional do fundador da Sonae, foi justo que o Estado português lhe prestasse a homenagem que a sua obra merecia. Lamento que alguns grupos parlamentares, conhecidos pela sua ideologia totalitária e ódio de classe, não tenham tido a decência de o honrar por ocasião da sua morte, mas talvez a memória de Belmiro de Azevedo tenha ficado beneficiada com essa sua atitude.
Quanto ao Zé Pedro, que também não conheci pessoalmente, sempre lhe tive simpatia, porque sou da sua geração – ele era pouco mais velho do que eu – e por isso cresci ouvindo a sua música e a de muitas outras bandas, nacionais e internacionais. Soube que na sua adolescência passou, como tantos outros, por algumas experiências menos felizes e, por isso, alegrou-me sabê-lo recuperado e empenhado em ajudar jovens na mesma situação, participando com regularidade em acções de sensibilização. Sei que, como ele próprio dizia, ‘casou para a vida’, o que no meio artístico e nos tempos que correm é bastante meritório. Foi, sem dúvida, um músico muito conhecido e querido, sobretudo se comparado com o distante patrão da Sonae. Contudo, não conheço nenhuma intervenção relevante do Zé Pedro a nível nacional, ou no estrangeiro, que justifique o voto de pesar de todos os deputados de todos os partidos com assento parlamentar. Que significa esta rara unanimidade?! É só populismo?! Eleitoralismo barato?! Pieguice nacional?! Onde pára a respeitabilidade do Estado e dos seus órgãos de soberania?!
Por este andar, quando um popular locutor da televisão render a alma ao Criador, decreta-se luto nacional e vela-se o mediático sujeito na Assembleia da República. Ou, quando um mais ou menos conhecido cançonetista, ou jogador de futebol, tiver guia de marcha para a eternidade, fecham-se as escolas e põe-se a bandeira nacional a meia-haste.
Desejo uma longa vida e as maiores felicidades a todos os artistas portugueses, bem como aos desportistas nacionais, aos intervenientes nas marchas populares alfacinhas, aos figurantes do carnaval de Torres Vedras, aos participantes nos fóruns da TSF e às idosas que fazem de público nos programas matutinos da TVI. Mas, não podendo os deputados honrar todos os cidadãos falecidos, é razoável que reservem as suas condolências para os portugueses que mais se distinguiram pelo seu saber e serviço à comunidade. Aos ‘Belmiros’, entenda-se, que são poucos, e não aos ‘Zés’ que, com toda a consideração e simpatia pelo músico, são aos milhares.
Jean d’Ormesson disse, em 2008, que um escritor deve evitar o azar de morrer ao mesmo tempo que alguma celebridade mediática pois, nesse caso, arriscava-se a ser por ela eclipsado. Sábias palavras premonitórias: ele próprio faleceu recentemente, horas antes de Johnny Hallyday, que atraiu a atenção da imprensa, em detrimento da vida e obra do ‘imortal’ membro da Academia Francesa.
Infelizmente, não foram só a comunicação social e o parlamento que promoveram esta triste encenação, pois a Igreja também se prestou a isso, segundo notícia recentemente divulgada: “A morte do fundador do Xutos & Pontapés provocou as mais diversas mensagens de pesar, bem como as mais originais homenagens um pouco por todo o país. E uma delas chega-nos de Guimarães, mais precisamente da Basílica de S. Pedro do Toural. Na missa realizada no domingo seguinte ao funeral, o pároco e o coro da igreja resolveram homenagear o Zé Pedro cantando ‘Não sou o único’. O vídeo mostra como o padre, o coro e os fiéis cantam a música do Xutos & Pontapés, numa homenagem ao falecido fundador da banda rock portuguesa”.
Embora o masoquismo não seja o meu forte, não me poupei ao sacrifício de ver o vídeo da infeliz actuação do canoro e dançante presbítero, paramentado a rigor, com o coro e os fiéis que tiveram o mau gosto de, em plena igreja e na missa, segundo reza a peça, cantarem uma música dos Xutos & Pontapés. Se fosse uma homenagem a um futebolista, provavelmente promoveriam um jogo no adro da igreja, ou decorariam o altar com bolas de futebol, chuteiras, bonés e bandeiras do clube em questão. Tudo, claro, em honra do defunto que, como se sabe, desfruta imenso com modinhas pegadiças e efemérides futebolísticas em sufrágio da sua alma.
A propósito destes despropósitos, o Papa Francisco, na audiência geral de 12 de Novembro passado, “repreendeu os padres e os bispos que tiram fotos com o telemóvel durante a missa. O sumo pontífice disse que, ao invés de tirar fotos, deveriam concentrar-se em Deus. (…) Fico muito triste quando celebro (a missa) aqui na praça (de São Pedro) ou na basílica e vejo tantos telemóveis erguidos. Não só pelos fiéis, mas também por alguns padres e até bispos!”, afirmou o Papa, acrescentando: “A missa não é um espectáculo!” – um recadinho que vem mesmo a propósito da ‘tourada’ no Toural …
Que o Zé Pedro, os seus familiares e amigos me desculpem o desabafo em que, quero crer, ‘Não sou o único’. Não o faço em desprimor da sua pessoa, pela qual tenho, como disse, mais simpatia até do que pelo Engº Belmiro de Azevedo, que deixou uma obra admirável. Também tenho mais estima pela minha falecida avó do que por Sophia de Mello Breyner Andresen mas, ao mesmo tempo que reconheço que é justo que a poetisa esteja sepultada no panteão nacional, acharia disparatado que lá jazesse também essa minha progenitora, que foi – releve-se a imodéstia – cultíssima filha de um reitor da Universidade de Lisboa e presidente da Academia das Ciências. Não é esta uma questão de afectos, compadrios ou simpatias. É tão-só uma questão de justiça e de respeito, neste caso pela Eucaristia e pelo Parlamento, pela santidade da Igreja e pela dignidade de Portugal.
Fonte: Observador

15 de dezembro de 2017

A Armada portuguesa, a mais velha do mundo, faz anos. São 700 anos a defender Portugal

Foto de Nova Portugalidade.


Celebram-se hoje (12 de Dezembro) setecentos anos da fundação da Armada portuguesa. O simples facto de a marinha ser mais antiga que a larga maioria dos Estados evidencia, grita mesmo, verdade importante a respeito da natureza dos portugueses: somos um povo do mar. Por ditame da geografia e do espírito, foi nas grandes extensões oceânicas que Portugal se fez livre. Lisboa conquistou-se do mar, não podendo Afonso Henriques tomá-la sem a participação dos cruzados que, a caminho da Terra Santa, adentraram o Tejo para o golpe final sobre o ocupante mouro. A inserção de Portugal na economia europeia deu-se pelo mar. Durante a guerra da independência, a Lisboa que o Mestre de Avis defendia - e que era já a mais importante urbe do Reino - resistiu por uma nossa frota, vinda do Porto com mantimentos e mãos para a luta, ter rompido o bloqueio que Castela nos impunha no Tejo. O Infante encontrou no mar a receita da nossa liberdade, e o mar foi o alfa e o ómega da nossa existência enquanto povo da conquista de Ceuta, em 1415, até à recente integração de Portugal na Europa política.

O interesse recente pela natureza oceânica da nação portuguesa é, sem dúvida, muito bom e muito útil, mas parece pecar por miopia, redução e desconhecimento. Se falar em mar significar falar na expansão da Zona Económica Exclusiva, fazê-lo será, por muito que a ZEE nos interesse, bastante pouco. Um olhar renovado, mais ambicioso e mais amplo, deve reconciliar os portugueses com as ondas. Falar em mar deve ser falar em Portugalidade, na nossa civilização global e no direito dos portugueses a se reintegrarem nela; deve ser, sobretudo, ver nele oportunidade de libertação e certeza de potência política, económica e militar. O Atlântico Sul, durante tantas centúrias autêntico lago de bandeira e língua portuguesas, foi deixado com a nossa retirada sem ordenação e sem segurança. Não se percebe porquê, até porque a região continua a ser o que foi desde o século XVI: o interior de triângulo estratégico composto por Lisboa (Portugal), o Rio de Janeiro (Brasil) e Luanda (Brasil). O regresso dos povos lusíadas a essas águas tão habituadas à nossa presença é uma urgência que não mais pode ser retardada. Ora, bastaria que se fizesse uma força naval conjunta das portugalidades atlânticas para que esse regresso fosse consumado. Num tempo em que tanto se fala de cooperações em matéria de defesa, fica esta de sabor e tradição portuguesas. Para que tanto possa fazer-se, e para que o oceano e a Armada de novo possam ser ferramentas ao serviço de Portugal, muito haveria a fazer: apetrechar a frota, refazer a indústria naval, repensar a marinha como garantia de prestígio nacional, de relevância estratégica e de prosperidade económica.

Setecentos anos após a fundação da Armada por Manuel Pessanha, 1º Almirante-mor do Reino, e pelo Rei Dom Dinis, Portugal parece necessitado de refundá-la. Refundá-la, sim, em horizontes, em ideias de missão e serviço, no modo como a marinha é instrumento primeiro da grandeza do país e, para que ela possa ser-lhe útil, nos meios de que necessita e que hoje não possui. Precisamos de um novo Dom Dinis e de um novo Manuel Pessanha. Mas, enquanto eles não chegam, temos uma Armada que é a mais antiga do mundo, a obreira de tantos triunfos e a razão de muito orgulho. Parabéns, Armada de Portugal. Venham os próximos 700.


13 de dezembro de 2017

Homenagem Depois do Tempo a um Homem Antes do Tempo!

gonrb.jpg


Gonçalo Ribeiro Teles é um Homem do nosso tempo.

Depois de uma vida inteira dedicada à Causa Pública, Gonçalo Ribeiro Telles foi, finalmente, homenageado pelo Estado Português! Não sei se pela má consciência dos desastres ambientais de tão trágicas consequências para os Portugueses, se pelo frenesim com que o nosso Presidente da República agracia portugueses mais ou menos distintos?
Acho que este tardio e justíssimo reconhecimento do Estado foi felizmente precedido, de há muito tempo, por um alargado e sincero reconhecimento dos Portugueses. De todos os Partidos Políticos, de todas as sensibilidades socioculturais. Da Nação de que tantos não gostam, por puro preconceito, de falar.

Hoje, digo-o sem nenhuma satisfação, tem mais valor falar de “Sentido de Nação” – de gostar de ser português e de cumprir a seu dever de cidadania ao serviço dos portugueses, do que “Sentido de (um) Estado” que não temos a certeza se é “de bem” mas que temos comprovadamente a convicção de que não faz bem, em tantas áreas importantes da sua intervenção. E é por isso que entendo que Gonçalo Ribeiro Teles é um homem com Sentido de Nação! A tal que lhe deu o merecido e sincero reconhecimento, antes do próprio Estado.

Gonçalo Ribeiro Teles, enquanto político distinguiu-se sempre pelo que mais tem faltado hoje às classes dirigentes – o sentido de ética, de responsabilidade e de compromisso!

A verdade é que Gonçalo Ribeiro Teles foi mais do que um grande dirigente político e um grande cidadão. Foi o Precursor das mais importantes políticas agro-ambientais aplicadas em Portugal e foi teimosamente pioneiro, no permanente alerta às autoridades públicas dos muitos erros cometidos por tantos Governos na preservação, ordenamento, desenvolvimento e qualificação do Território no sentido pleno da palavra!
Gonçalo Ribeiro Teles foi o primeiro “Verde”, por consciência e cidadania, antes de existirem sequer os Verdes por oportunidade política!
E não foi um pioneiro por qualquer arte de adivinhação ou por uma cultura do pessimismo fatalmente portuguesa. Mas antes por ser um dos maiores conhecedores mundiais desta tão importante área do saber – o conhecimento desse extraordinário Mundo Vivo onde todos queremos estar bem!
Foi um Ecologista inteiro – da Terra onde vivemos, da Humanidade que somos e do que é necessário fazer para que estas duas realidades se harmonizem.
Gonçalo Ribeiro Teles foi talvez o primeiro “Ecologista Politico” que sempre soube da urgência permanente de aproximar a “Ecologia da Terra” da “Ecologia Humana”.

Também na defesa da Instituição Real e da forma Monárquica de regime foi um dos primeiros pioneiros da nossa Democracia. Porque antecipou, antes de quase todos, que seriam as Monarquias os regimes que melhor defenderiam as Democracias do futuro. Vejam simplesmente quais são na actualidade as grandes Democracias as grandes Ditaduras do Mundo e terão uma amostra aproximada do que Ele, também aqui, antecipou!

É assim um Apóstolo da Modernidade – de uma modernidade que nos deve fazer pensar, apesar de, como Ele, corrermos o risco de termos razão antes do tempo!
A minha homenagem a este Apóstolo da Modernidade que tão justamente recebe, por feliz coincidência (?) a Ordem do Infante Dom Henrique, outro dos mais célebres precursores da História de Portugal. Aquele de quem Fernando Pessoa dizia ter sido primeiro grande “Globalizador”, o primeiro homem no Mundo que juntou Continentes depois da Glaciação!
Ao Apóstolo da Modernidade - Gonçalo Ribeiro Teles com quem tanto aprendi, o meu modesto, sincero e eterno obrigado!  

Antonio de Souza-Cardoso
Presidente da Causa Real