18 de novembro de 2017

Fernão Mendes Pinto: o aventureiro do Império

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Autor da “Peregrinação”, Fernão Mendes Pinto ergue-se com um dos vultos de peso da cultura portuguesa do século XVI. O fascinante relato das suas viagens pelo Oriente dá-nos conta do quão perigosas estas poderiam ser, e as aventuras e desafios com que se defrontou foram, certamente, enfrentadas por copiosos outros homens que, à sua semelhança, percorreram os mares nas caravelas portuguesas. 

Nascido em cerca de 1510, Fernão Mendes Pinto provinha de uma família modesta que, provavelmente, seria detentora de algum título nobiliárquico de menor relevo. Trazido para Lisboa por um tio, foi posteriormente para Setúbal, onde entrou ao serviço de um nobre, Francisco de Faria, da casa de D. Jorge, o filho bastardo de D. João II. Daí parte para a Índia, por volta de 1537.

Chegado ao Índico, fez parte da comitiva de um cruzeiro que circulava pelo Mar Vermelho, mas foi inesperadamente feito cativo por muçulmanos que por sua vez o venderam a um grego, acabando por ser resgatado em Ormuz. De seguida, encaminhou-se para Malaca com Pedro de Faria, que ocupava o cargo de governador, sendo este possivelmente aparentado com o Faria setubalense a quem antes tinha estado ao serviço. A partir do ponto nevrálgico de Malaca, Fernão embarcou em novas aventuras que o levam a percorrer a costa da Birmânia, o Sião, o arquipélago de Sunda, as Molucas e o Japão. Ao longo de cerca de vinte e um anos, Fernão Mendes Pinto adquiriu uma experiência extraordinária, testemunhando e convivendo com culturas, povos e territórios tão distintos entre si e tão longínquos da sua terra natal. No decorrer de todo este tempo, o autor conta-nos que foi náufrago, treze vezes cativo e dezassete vendido, bem como emissário em embaixadas de grande pompa oriental. As suas viagens foram recheadas de grandezas e misérias: ora rastejava nos recônditos mais rudes da existência humana, ora era senhor orgulhoso de uma embaixada luxuosa.

Outras fontes para além da sua obra, a “Peregrinação”, nestas incluindo cartas de jesuítas com quem conviveu (entre eles o próprio S. Francisco Xavier), é possível descortinar uma crise de consciência que o terá abalado, e que o compeliu a ingressar na Companhia de Jesus e rumar ao Japão. No entanto, desiludido com a experiência, regressa finalmente a Portugal, onde em vão busca uma tença real como recompensa dos serviços prestados. Estabelecendo-se em Almada, dedicou-se à redação da sua obra magistral, testemunho das suas experiências, acabando por falecer em 1583.

Embora a sua obra esteja repleta de imaginação e acrescentos literários a uma narrativa verídica na base, a “Peregrinação”, além do exotismo sedutor, carrega em si uma essência com matizes de uma narrativa picaresca, mas com uma preocupação moral e satírica, uma irónica denúncia de falsos valores pelo exemplo, que fazem da obra uma sátira de costumes e ideias. Acima de tudo, o testemunho de Fernão Mendes Pinto é a de um português que viajou por grande parte do Oriente e conseguiu conviver durante décadas num ambiente culturalmente muito heterogéneo, não sem enfrentar grandes provações, que, com um misto de heroísmo e bravura, conseguiu sempre superar.

Miguel Martins

16 de novembro de 2017

A portugalidade num prato

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A marca deixada por uma civilização não se limita aos feitos de armas, aos homens de acção, às batalhas e à sucessão dos governantes, nem tampouco à construção de uma literatura, ao enriquecimento vocabular que trouxe, aos novos conhecimentos e técnicas que desencadeou, às instituições sociais e políticas e às leis que produziu. Se as culturas dividem, as civilizações juntam, pelo que nestas se produz aproximação e síntese de caracteres anteriormente separados pelo espaço e pelo gosto; em suma, um estilo.

A história de uma civilização é feita de homens e populações, pelo que há que a estudar e compreender mais nas pequenas manifestações, por vezes tão insignificantes que a elas pouca atenção conferimos. Nos hábitos e práticas quotidianas dos povos tocados por uma dada civilização, a gastronomia, cujo estudo só recentemente prendeu a atenção dos estudiosos, ocupa indiscutivelmente um lugar proeminente. Pode-se dizer, sem exagero, que a civilização portuguesa produziu a mais rápida e revolucionária mutação do gosto operada na história mundial desde o neolítico, pois que aquelas que antes se haviam produzido apenas graças à justaposição e proximidade de civilizações se tornou, após o início da Era Gâmica, numa verdadeira revolução planetária.

Oferecemo-vos hoje um exemplo singelo. Quando, ao passarmos por um restaurante alentejano, nos sugerem como sobremesa um prato de sericaia, esse manjar gabado por todos os roteiros turísticos e gastronómicos, não nos ocorre estarmos perante uma das mais fascinantes viagens do gosto existente na doçaria mundial. Com efeito, ao contrário do que supunha Sebastião Dalgado no seu Glossário Luso-Asiático, que lhe atribuía origem malaia, a sericaia é uma receita tailandesa, ali conhecida por Kanom Mokeng (ขนมหม้อแกง).

Após os primeiros contactos entre portugueses e siameses, a receita thai - com leite de coco, ovos, farinha e sal - transitou para Malaca, onde se começou a aportuguesar mas, volvidas algumas décadas, passou a Goa, onde ganhou um toque indiano mediante adição de uma pitada de canela. Por altura da governação de Dom Constantino de Bragança, a sericaia passou a doce de eleição na mesa do jovem Vice-Rei. Ao regressar ao Reino, em 1561, regressou pobre, tão pobre que até as autoridades desconfiaram que tivesse ocultado miríficas riquezas que jamais foram encontradas. Mas Dom Constantino trouxe um segredo culinário que logo passou às religiosas do convento Santa Clara de Elvas. Por incrível coincidência, a receita encontraria naquele convento a mais sábia das mãos. Ali vivia, no último quartel do século XVI, uma jovem religiosa oriunda de uma família nobre que tinha por escrava uma jovem siamesa. A rapariga, ao provar a sericaia das irmãs do convento, disse tratar-se do Kanom Mokeng. Encantada, a Madre do Convento pediu-lhe que preparasse a receita, mas não havendo à disposição os ingredientes do Sudeste-Asiático, aplicou-lhe leite, farinha, ovos e açúcar, substituindo o sal por limão.

Dois séculos volvidos, já a sericaia era há muito um prato da Corte de Lisboa, chegou ao Rio em 1808 após a transferência do governo. Popularizou-se, expandindo-se por toda a geografia brasileira, sendo deste então um dos mais elogiados acepipes da doçaria brasileira.

Asiática ? Europeia ? Brasileira ? Não, a sericaia é, por excelência, uma receita da Portugalidade.

Miguel Castelo-Branco


15 de novembro de 2017

Jantar dos Conjurados - Braga

As Reais Associações de Braga e Viana do Castelo, convidam V.ª Ex.ª a participar no “Jantar dos Conjurados” que se realizará no dia 30 de Novembro de 2017, pelas 20h00m, no T4 Restaurante & Bar, em Bragano qual o Senhor Dr. Carlos Aguiar Gomes, Mestre da Militia Sancta Mariae e Presidente da Associação Famílias, fará uma intervenção sobre o tema “E hoje o que fariam os Conjurados?”.
Preço do Jantar:
Adultos: 18,00 €
Crianças:
Até aos 4 anos: não pagam
dos 5 aos 10 anos: 9,00 €
As inscrições encontram-se limitadas à capacidade da sala pelo que deverão ser feitas com a maior brevidade possível e impreterivelmente até ao dia 26 de Novembro, para o e-mail da Real Associação de Braga, devendo ser enviada a indicação do nome, ou nomes dos participantes e um telefone de contacto, acompanhadas do respectivo comprovativo de depósito ou transferência bancária efectuada para:
Caixa Económica Montepio Geral
IBAN: PT 50 0036 0038 99100 5387 3550
BIC/SWIFT: MPIOPTPL
T4 Restaurante & Bar
Rua Cidade do Porto, 139 a 141
4705-084 Braga
Tel.: 258 823 771
Para mais informações contactar por favor a Real Associação de Braga, através do e-mail: realassociacaobraga@gmail.com , ou para os telemóveis dos Presidentes da Direcção, das Reais Associações de Braga e Viana do Castelo, respectivamente Dr. Gonçalo Pimenta de Castro 919 932 154 e Dr. José Aníbal Marinho, 961 318 001
Este evento conta também com a colaboração da Real Associação do Porto.

14 de novembro de 2017

O banquete de peixe: quando Dom Sebastião assombrou Filipe II

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Coube a Frei Bernardo da Cruz, capelão-mor da armada portuguesa, deixar-nos na Crónica de El-Rei Dom Sebastião a memória de um dos mais prodigiosos acontecimentos gastronómicos da petite-histoire portuguesa do século XVI.

Na quadra natalícia de 1576, germinava já o magno plano de uma campanha militar em África, Dom Sebastião de Portugal e o seu tio Filipe II de Espanha encontraram-se em Guadalupe, povoado situado na Estremadura espanhola, para lá de Cáceres. Como ditava o protocolo, cabia ao anfitrião presentear o real hóspede com um lauto banquete de acolhimento, e ao convidado retribuir com um novo banquete por ocasião da sua partida.

Como era prática, a quadra festiva da celebração do nascimento de Jesus Cristo era marcada por imoderado consumo de viandas, doçarias e vinhos, a que se seguia uma semana de dieta que interditava alimentos provenientes dos matadouros, quaisquer que estes fossem, até mesmo aves e enchidos. Dom Sebastião, colocado perante o dilema de não poder servir carnes à corte espanhola, pediu parecer aos seus conselheiros eclesiásticos, que logo encontraram uma solução concordante com os preceitos religiosos, mas que exigia uma pesada logística num tempo em que não havia meios outros que o sal para preservar os alimentos, e as especiarias para dissimular a sua degradação. A comitiva portuguesa saiu de Lisboa no dia 11 de Dezembro e, dias depois, uma imensa caravana de mulas seguiu na peugada do Rei português. Felizmente, fazia um frio seco e inclemente que favorecia a carga colocada no dorso dos animais. A coluna deslocava-se dia e noite sem parar, sendo preciso que se renovassem os animais de carga. Finalmente, dias depois do Natal, chegaram a Guadalupe.

Grande expectativa e curiosidade havia no círculo do Rei de Espanha. Como podia Dom Sebastião mostrar-se digno da sua condição de grande Príncipe cristão se se estava em semana de dieta rigorosa?

Trancaram-se em rigoroso segredo os cozinheiros e criados nas grandes cozinhas do Mosteiro de Guadalupe e ali estiveram um dia e uma noite a preparar o banquete. Quando, finalmente, se abriram as portas da cozinha e a procissão de criados transportou para a grande sala onde estavam os Reis e a alta nobreza das duas Coroas, o assombro foi geral. Dom Sebastião serviu ao Rei espanhol 190 pratos de peixe, marisco, ostras, guisados e pastéis de legumes, fritos, cozidos, conservas imersas em escabeche, numa tão grande gama de iguarias que a todos deixou deslumbrados. Após o sardapalesco e interminável jantar de peixe e marisco, entrou nova maré de sabores, desta vez doces nunca antes provados pelos palatos espanhóis.

Tão farta era a mesa que, vendo estoirados o Rei e grandes de Espanha, Dom Sebastião mostrou que faltava demonstar uma vez mais a sua qualidade de Príncipe Cristão, mandando chamar toda a população da vila de Guadalupe para distribuir o manjar real.

Miguel Castelo-Branco

13 de novembro de 2017

Lutero: reformador ou revolucionário?

Se à mulher de César não lhe basta ser honesta, pois deve também parecê-lo, com mais razão a Igreja, esposa de Cristo, deve rejeitar os revisionismos históricos.

A propósito dos quinhentos anos da ‘reforma’ protestante, protagonizada por Martinho Lutero, em 1517, muitas têm sido as iniciativas, também na Igreja católica. Depois do grande cisma do oriente, que no final do primeiro milénio dividiu os cristãos em orientais e latinos, a ‘reforma’ luterana afastou da Igreja católica milhões de fiéis, sobretudo na Alemanha e nos países escandinavos. Lutero não só se separou da Igreja romana, como também deu origem a inúmeras confissões cristãs, ditas reformadas ou protestantes.
Martinho Lutero, que tradicionalmente foi tido, pela Igreja católica, como o heresiarca responsável pela separação dos cristãos que, seguindo-o, abandonaram Roma, é agora considerado por alguns católicos como alguém providencial, como se tivesse sido o instrumento do Espírito Santo para a reforma da Igreja católica. Assim deu a entender o secretário-geral da Conferência Episcopal Italiana, Nunzio Galantino, quando, em Outubro passado, na romana Universidade Lateranense, afirmou que “a reforma iniciada, há quinhentos anos, por Martinho Lutero, foi um acontecimento do Espírito Santo”.
É verdade que todos os acontecimentos, também os negativos, são de algum modo consentidos pelo Espírito Santo, como expressamente afirma São Paulo, quando diz que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que Deus ama (cf. Rm 8, 28). O Criador escreve direito por linhas tortas, mas não se podem imputar à providência divina os pecados e misérias humanas. Graças à paixão e morte de Jesus Cristo, deu-se a redenção da humanidade, mas é óbvio que um tal efeito sobrenatural não absolve os verdugos do redentor: Judas Iscariotes, o Sinédrio, Pôncio Pilatos, etc. O mesmo se diga, mutatis mutantis, da ‘reforma’ luterana: embora tenha sido a ocasião propícia para um posterior esclarecimento, pelo Concílio de Trento, de alguns aspectos da doutrina católica, não se podem ignorar os efeitos catastróficos do cisma provocado por Lutero.
O cardeal Gerhard Müller opôs-se a este revisionismo histórico, num artigo agora publicado na ‘La Nuova Bussola Quotidiana’. Para este prelado, a ‘reforma’ luterana “teve um efeito contrário à vontade de Deus”: do ponto de vista da doutrina católica, a dita ‘reforma’ luterana não foi tal, “mas uma autêntica revolução da doutrina da Igreja”.
É verdade que muitos historiadores tendem a justificar Martinho Lutero, porque lutou contra o abuso das indulgências e denunciou os maus costumes que então se viviam na corte pontifícia. Mas, como esclarece o cardeal Müller, “abusos e comportamentos indignos sempre houve na Igreja e também hoje os há. Somos uma Igreja que é santa pela graça de Deus e pelos sacramentos, mas todos os homens da Igreja são pecadores e, por isso, todos precisam do perdão, da contrição e da penitência”. Se Lutero se tivesse limitado a pregar a reforma moral, ou a censurar os vícios de alguns dos cristãos do seu tempo, teria sido, com efeito, um venerável reformador, como o nosso beato Frei Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga e figura grada do Concílio de Trento. Infelizmente, Lutero quis empreender uma mudança radical da doutrina cristã, alterando substancialmente o modo como, há mais de mil e quinhentos anos, se acreditava e vivia a fé cristã, dando assim origem a uma experiência religiosa inédita, divergente da tradição eclesial.
A propósito do ‘De captivitate Babylonica ecclesiae’, que Martinho Lutero escreveu em 1520, Gerhard Müller disse: “é absolutamente claro que Lutero abandonou todos os princípios da fé católica em relação à Sagrada Escritura, à Tradição apostólica, ao magistério do Papa, aos Concílios e ao episcopado. Opôs-se […] à noção católica de sacramento, como sinal eficaz da graça nele contida, substituindo a eficácia objectiva dos sacramentos por uma fé subjectiva”.
“Por tudo isto – escreveu ainda o cardeal Müller – não podemos aceitar que a reforma de Lutero possa ser tida como uma reforma da Igreja, em sentido católico. Uma reforma católica é uma renovação da fé vivida na graça, uma renovação moral e ética, uma renovação espiritual e moral dos cristãos; mas não a fundação de uma nova Igreja. Portanto, é inaceitável afirmar que a reforma de Lutero ‘foi um acontecimento do Espírito Santo’. Pelo contrário, foi contra o Espírito Santo, porque o Espírito Santo é que garante a continuidade da Igreja por meio do seu magistério, sobretudo o petrino: Jesus fundou a sua Igreja unicamente sobre Pedro (Mt 16,18), ‘a Igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade’ (1Tim 3, 15)”.
Não se pense, contudo, que esta intervenção do cardeal Müller se opõe ao movimento ecuménico, tão fortemente incentivado pelo Concílio Vaticano II e por todos os Papas do pós-concílio, nomeadamente o Papa Francisco. “Certamente – reconhece-se neste artigo – passaram quinhentos anos e não é hora de fomentar polémicas mas de procurar a reconciliação, embora não à custa da verdade. […] Se, por um lado, se deve reconhecer a acção do Espírito Santo nos cristãos não católicos que pessoalmente não cometeram o pecado da separação da Igreja, por outro não se pode mudar a história sobre o que aconteceu há 500 anos. Uma coisa é ter o desejo de manter boas relações com os actuais cristãos não católicos […], mas outra muito diferente é a incompreensão ou a falsificação do que aconteceu há 500 anos e do seu efeito desastroso, contrário à vontade de Deus”, a qual é, obviamente, a unidade eclesial (cf. Jo 17, 21).
Por sua vez, D. Manuel Clemente, Cardeal Patriarca de Lisboa e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, considerou Lutero como “uma grande fonte de inspiração”, porque “procurava voltar às fontes bíblicas directamente”. Embora não pretendesse provocar uma ruptura na Igreja, a verdade é que foi responsável pelo cisma que, desde então, divide os cristãos latinos e que, infelizmente, ainda não foi superado.
Cristo quer a unidade de todos os que nele creem, mas na verdade. Escamotear a história, mesmo que seja com um louvável propósito ecuménico, não é aceitável. São Paulo encarecia aos primeiros cristãos a prática da caridade na verdade (cf. Ef 4, 15). Se à mulher de César não lhe basta ser honesta, pois deve também parecê-lo, com mais razão a Igreja, esposa de Cristo, deve rejeitar os revisionismos históricos, não só por serem contrários à verdade, mas também porque contrariam a tão desejada unidade de todos os cristãos.
Fonte: Observador

12 de novembro de 2017

BASTA de humilhações: Portugal reduzido a carpete

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Diz o adágio que uma imagem diz mais que mil palavras. O provérbio mostrou estar correcto; ou antes, está-lo-ia se da nossa língua antiga não fosse possível extrair expressão exacta do nosso infamante estado: opróbrio, abuso, saque, vergonha, ultraje. Ontem, no encerramento do Web Summit de Lisboa, demonstração clarividente do colapso do amor próprio do Estado português e da consciência patriótica nos seus líderes: uma horda ignota, rapazes de todos os pontos do globo, jantando no Panteão Nacional; isto é, enchendo-se ao lado dos cenotáfios do Gama, de Camões e de Álvares Cabral, comendo sobre os ossos de Amália e convertendo em banal cantina o que é templo dos nossos maiores homens, dos seus feitos e da sua memória.

Contra o Web Summit em si, nada a dizer: bom é que o mundo ande de olhos postos em Portugal, e bom é, também, que o nome de Lisboa seja hoje sinónimo de inovação e energia criadora. Mas não, pede a Nova Portugalidade e exigem todos os portugueses de coração sincero e firme coluna vertebral, desta maneira. Não reduzindo-nos a tapete do mundo e não, definitivamente, ultrajando o Panteão Nacional, que é tumba física ou simbólica dos mais altos filhos de Portugal.

Se assim nos tratamos nós, que consideração poderá Portugal exigir das outras nações? A questão não é desajustada, tem mérito e é penosamente reveladora. Seria imaginável que a França usasse o seu próprio Panteão Nacional para servir jantar a "empreendedores" vindos de sabe-se lá onde? Alguém vê o Reino Unido rebaixando Westminster e Saint Paul's com comes e bebes, permitindo a desgraça de gotas de vinho sob cúpulas e de coxas de franco sobre a tumba de Nelson, Fleming e João de Gaunt? E a Rússia, toleraria almoços na catedral de São Basílio, no Kremlin, na Dormição, aos pés de Nossa Senhora de Kazan? Serviria a Espanha pães e bolos na basílica do Escorial e em Santiago de Compostela? Fale-se com verdade, com direcção e com clareza: Portugal é um grande país e merece que o conheçam como grande país, mas não se comporta como grande país.

Exige-se pedagogia básica, paciente, já quase infantil do patriotismo. Há que explicar a quem manda o que é Portugal. Parece haver quem julgue que este país - terra pequena que se fez imensa, condado que se ergueu império, povo que saiu da periferia para tornar-se agente maior da História - nasceu ontem e que, havendo nascido ontem, pode acomodar estas inconsciências de gente sem memória e respeito próprio. Ora, assim não é, e por isso exigimos - de nós e dos outros - a consideração devida aos povos graúdos. Uma coisa é certa: se o espectáculo deprimente de ontem - miúdos de países que não existiam há trinta anos enfardando no Panteão - não prova a absoluta urgência que fazia a Portugal uma Nova Portugalidade, nada provará. Sim, precisamos muito deste ministério da dignidade, da espinha e do patriotismo que é a NP. Para recordar os portugueses do que são e convencê-los a ajustarem correctamente o ângulo do queixo: frente aos nómadas do "empreendedorismo", sempre altaneiro; ante os grandes portugueses do passado, nossos avós e nossa inspiração, respeitosamente baixo.

11 de novembro de 2017

São Martinho



Nasceu em 316 na Panônia (actual Hungria), numa família pagã que da parte do pai (oficial do exército romano) fez de Martinho um militar, enquanto o Pai do Céu o estava fazendo cristão, já que começou a fazer o Catecumenato.
Certa vez quando militar, mas ainda não baptizado, Martinho partiu em duas partes seu manto para dá-lo a um pobre, e assim Jesus aparece-lhe durante a noite e disse-lhe: “Martinho, principiante na fé, cobriu-me com este manto”. Então este homem de Deus foi baptizado e abandonou a vida militar para viver intensamente a vida religiosa e as inspirações do Espírito Santo para sua vida.
Com a direcção e ajuda do Bispo Hilário, Martinho tornou-se monge, Diácono, fundador do primeiro mosteiro na França e depois sacerdote que formava os seus “filhos” para a contemplação e ao mesmo tempo para a missão de evangelizar os pagãos; diferenciando-se com isso dos mosteiros do Oriente.
Por ser fiel no pouco, São Martinho recebeu o mais, que veio com a sua Ordenação para Bispo em Tours. Isto não o impediu de fundar ainda muitos outros mosteiros a fim de melhor evangelizar sua Diocese. Entrou no Céu em 397.
São Martinho de Tours, rogai por nós!

9 de novembro de 2017

Jantar dos Conjurados 2017


Irá realizar-se no próximo dia 30 de Novembro, no Hotel Palácio Estoril, o tradicional Jantar dos Conjurados promovido pela Causa Real.
Este evento assinala a importância e o significado da Restauração da Independência de Portugal, feito histórico que os portugueses gostam de celebrar com a sua Família Real.
S.A.R. o Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança, lerá uma Mensagem aos Portugueses às 19:30, seguindo-se o jantar com a Familia Real.
Este ano, o lucro do jantar reverterá parcialmente a favor da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Oleiros, assim se prestando homenagem a alguns dos que mais ajudaram a combater os recentes fogos florestais.
As inscrições serão feitas, como é hábito, presencialmente na nossa sede (15:00-18:00 ), ou através do endereço electrónico secretariado@reallisboa.pt.
Os ingressos, que deverão ser pagos e levantados dentro do referido horário, têm o valor de:
Adultos- €45
Jovens – €30 ( até aos 30 anos e associados da Causa Real com as quotas em dia, até ao limite de cem)
Estes preços são válidos até ao dia 29 de Novembro.
Contamos com a sua presença!


Fonte: Causa Real

8 de novembro de 2017

Mário Saraiva (1910-1998): o percurso de um doutrinador

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Nova Portugalidade recomenda

A todos quantos o leram ou privaram com Mário Saraiva, aqui deixamos o convite para a sessão pública de recepção do espólio do doutrinador que terá lugar no próximo dia 9 de Novembro, quinta-feira, pelas 18 horas, no auditório da Biblioteca Nacional de Portugal. Preside à sessão SAR, o Senhor Dom Duarte de Bragança. Será orador-conferencista o Doutor Nuno Pombo. Pedimos, pois, a todos os amigos que divulguem esta iniciativa do maior interesse e relevância para o estudo da obra de um dos mais importantes pensadores do patriotismo português do século XX.

7 de novembro de 2017

6 de Novembro - São Nuno de Santa Maria



"Quanto é o que dizeis: Que os castelhanos são muitos e vem grandes capitães e senhores com eles, tanto vos será maior honra e louvor de serem por vós vencidos. Cá já muitas vezes aconteceu os poucos vencerem os muitos, porque todo o vencimento é em Deus e não nos homens."

"Não tenhais medo por serem muitos, nem pelas ameaças que fazem com os seus gestos e alaridos, pois tudo não passa de um pouco de vento, que dentro em breves momentos terminará. Deveis ser fortes e esforçados, recebendo a grande ajuda de Deus, por cujo serviço ali estavam, defendendo a justa causa do Reino de Portugal."

§

Valoroso Santo Condestável do Reino de Portugal, defendei de novo a nossa Pátria de todos os inimigos internos e externos!

Beato Nuno de Santa Maria, protegei a nossa Pátria!
Beato Nuno de Santa Maria, salvai a nossa Pátria!
Beato Nuno de Santa Maria, santificai a nossa Pátria!


Fonte: Veritatis

6 de novembro de 2017

Quo vadis, Catalunha?

Espanha é um Estado plurinacional e, por isso, nem sempre foi pacífica a integração das suas diversas nacionalidades. Mas a unidade prevaleceu, primeiro por força do regime franquista e depois por virtude da Constituição democrática, que refundou o novo Estado espanhol: uma monarquia constitucional e unitária, com várias regiões autónomas. Que o chefe de Estado seja um rei, que é herdeiro dos que o foram de Castela, Leão, Aragão, Navarra e Galiza, bem como dos condes de Barcelona e dos senhores da Biscaia, parece ser uma solução razoável. Também a Bélgica, que é um país de grandes contrastes, tem na coroa o principal garante da sua unidade nacional. Embora se deva a Franco a atípica restauração monárquica espanhola, que contrariou as leis dinásticas, a Constituição agora vigente foi amplamente legitimada pelo voto popular, que a aprovou pela esmagadora maioria de 87,78% dos eleitores.
Que uma região espanhola, como é a Catalunha, venha agora (a que propósito?!) reivindicar a independência é, pelo menos, insólito, em termos históricos. Com efeito, não obstante uma certa autonomia do medieval condado de Barcelona, a Catalunha nunca foi um Estado independente, como também o não foi o país basco. Que antigos reinos pretendam a independência, faz sentido historicamente, na medida em que o foram antes da constituição do Estado espanhol, pelo casamento dos reis católicos, mas parece descabido que regiões que nunca foram independentes, o queiram ser agora.
Ao contrário de Espanha, Portugal é um Estado-nação, que nunca esteve integrado na monarquia espanhola, pelo que é falso que alguma vez dela se tenha separado. Quando o condado portucalense se tornou independente, não se separou de Espanha, que nessa data ainda não existia como Estado, mas de Leão, de cujo rei o conde D. Henrique era vassalo. Durante a dominação filipina, Portugal era juridicamente um Estado independente, embora o rei de Espanha também o fosse de Portugal: a união pessoal não implicou a perda formal da independência nacional. Também a rainha da Grã-Bretanha é soberana do Canadá e da Austrália, sem que estes países, que são Estados soberanos, sejam colónias britânicas.
Nenhuma razão histórica, ou política, parece fundamentar a criação, ‘ex novo’, de um Estado catalão, nem justifica a atitude dos independentistas contra a democrática Constituição espanhola e contra o Estatuto da Autonomia Catalã, aprovado por 88,14% dos catalães, em referendo de 25-10-1979. No limite, as forças pró-independência poderiam promover uma revisão constitucional, que permitisse a evolução de Espanha para um Estado federal e até admitisse, em casos extremos, a secessão de alguma das suas regiões. Todos os povos podem aspirar à independência, mas não a qualquer preço, nem por métodos contrários à legalidade democrática: não é admissível o recurso à violência, nem é razoável que uma declaração unilateral de independência ponha em risco a paz e a estabilidade da Catalunha e das restantes regiões espanholas.
Que se saiba, não existem razões humanitárias que legitimem esta extemporânea pretensão independentista. São os catalães uma minoria oprimida pelo Estado espanhol?! Não parece, pois gozam de uma ampla autonomia, que lhes permite ter um parlamento e um governo próprios. São explorados por outras regiões espanholas? Não consta, porque, antes de se precipitar nesta grave crise política, que já está a ter efeitos muito negativos na sua economia, era uma das autonomias mais desenvolvidas. Mas em Espanha, como em qualquer outro país e também na União europeia, é justo que as regiões mais ricas contribuam para o progresso das mais desfavorecidas. É marginalizada a sua cultura?! Pelo contrário, pois em todo o seu território se fala e ensina o catalão, em detrimento até do castelhano. Os catalães são preteridos nos cargos públicos?! De modo algum, pois os cargos na administração pública catalã estão ocupados, em geral, por naturais da região autónoma. Por outro lado, a Catalunha tem até as suas próprias forças de segurança, os Mossos d’Esquadra.
Afinal, que lhes falta ou que mais querem?! Participar, como nação, nos torneios de futebol?! Não ter que hastear a bandeira espanhola, junto à catalã?! Mas estas aspirações valem uma tão grave confrontação social e recessão económica, como a que a acção dos independentistas já está a provocar?!
Não deixa de ser paradoxal, senão mesmo contraditório, que os independentistas catalães queiram deixar de ser espanhóis, mas não queiram deixar de ser europeus. De certo modo, a Espanha é uma espécie de ‘união europeia’: essa foi a sua génese histórica e é ainda a sua realidade política, porque é um conjunto de várias nacionalidades unidas por uma estrutura supranacional. Se não querem ser espanhóis, para não ter que subsidiar os andaluzes, como se diz, como hipotético novo membro da União europeia, a Catalunha aceitará contribuir para o desenvolvimento das nações europeias mais carenciadas?!
À Igreja não compete ser a favor ou contra a independência da Catalunha, porque esta é, obviamente, uma questão opinável. Mas deve ser sempre pela concórdia e pela paz, como disseram o Papa Francisco e os bispos espanhóis, na nota de 27-9-2017 da comissão permanente da respectiva Conferência Episcopal. O independentismo catalão pode ser uma justa aspiração, mas pode não ser, se for expressão do orgulho e da falta de solidariedade de alguns catalães, que ameaçaram a paz e a prosperidade da própria Catalunha e das restantes regiões espanholas. O egoísmo dos povos – recorde-se o nacional-socialismo alemão – não é virtuoso: a doutrina social da Igreja sempre louvou o patriotismo, mas sempre condenou o nacionalismo, como expressão que é do orgulho nacional.
O protestante rei Henrique IV de Navarra teve de se converter ao catolicismo, para aceder ao cristianíssimo trono francês. A ele se atribui a famosa frase: ‘- Paris vale bem uma missa!’ Também a Catalunha vale bem uma missa, embora uma missa valha muito mais do que Paris, ou a Catalunha. É necessário que todos os catalães, quaisquer que sejam as suas opções ideológicas, renunciem à violência, de facto ou verbal, e se empenhem em fazer da sua convivência uma ‘missa’, ou seja, uma experiência de comunhão. Se assim não for, a missa será de requiem … pela Catalunha!
Fonte: Observador

5 de novembro de 2017

A Morte de um Rei

O fogo que consumiu a totalidade do Pinhal de Leiria não foi apenas um fogo num pinhal igual a tantos outros, foi o Fim de um certo Portugal que poderá não mais voltar se nos mantivermos calados perante a calamidade que infesta o nosso País há décadas .Foi um fogo de dimensão nacional, um entre outros quinhentos incêndios que despoletaram no mesmo dia, consumiu pessoas, vilas, cidades, aldeias e acima de tudo consumiu a História de um País com quase 900 anos de existência.O Portugal que plantou o pinhal de Leiria foi o Portugal de D. Dinis que se opôs com um pequeno Reino à perseguição dos Templários ,apoiada por toda a Europa, foi o Portugal que planeou os Descobrimentos a décadas de tal plano ser sequer imaginável , foi o Portugal onde não se admitia e tolerava tudo em troca de riqueza, foi o Portugal que transformou um pequeno pobre e periférico Reino medieval numa fonte de civilização que se espalhou pelos quatro cantos do Mundo  , o império mais longo da História. A destruição do Pinhal de Leiria, a sua tolerância é a Morte de um Rei, de todos eles de todos nós portugueses de um certo Portugal que já apenas morava nos livros de História. Não é preciso ser monárquico para perceber isto.





3 de novembro de 2017

Quinta dos Marqueses de Alegrete - Roteiros Reais



No próximo dia 11 de Novembro às 10:00 voltamos aos nossos Roteiros Reais com o nosso associado Joel Moedas Miguel desta vez com uma visita guiada à Quinta dos Marqueses de Alegrete, na Charneca do Lumiar - Campo das Amoreiras, 94 - 1750-025 Lisboa.

O ponto de encontro é no local, e o custo da vista é de 10,00€ por pessoa estando o número máximo de participantes limitado a 40 pessoas.

Em 1687 El-Rei D. Pedro II atribui o título de Marquês de Alegrete a Manuel Teles da Silva, 2º Conde de Vilar Maior, pela sua participação como um dos 40 Conjurados de 1640, pela sua dinâmica nas Guerras da Restauração e como Embaixador de Portugal. A ele se deve a construção da Quinta Alegre, destinada a quinta de recreio da família às portas de Lisboa. Depois dele, a sua descendência aumentou e redecorou a casa, sendo um excelente exemplar da arquitectura e das artes decorativas do séc. XVIII.
Para mais esclarecimentos e inscrições contacte-nos através do endereço secretariado@reallisboa.pt, pelo telefone 21 342 81 15 ou presencialmente na nossa Sede nos horários habituais.

2 de novembro de 2017

Ainda sobre aquele rio de mentiras da RTP 2 - Fernando Rosas: a impostura do marxista que nega Marx

1. Corre presentemente na RTP-2 um programa da autoria de Fernando Rosas intitulado História a História - África e que se apresenta com a pretensão de oferecer um quadro terrífico do impacto da presença portuguesa em África nos séculos XIX e XX. Confiado a um historiador ideologicamente comprometido e que pouco ou nada sabe de África, História a História é um exercício desonesto, anti-científico e declaradamente anti-português na análise do último século do sistema luso-africano. Para Rosas, ferido de parcialidade, cegueira, incontida má-fé e pobreza extrema nas fontes historiográficas e bibliografia datada de que se socorre, a colonização portuguesa constituiu um desastre para o conjunto dos povos por ela tocados.

2. Rosas é um marxista - que o seja - mas o seu discurso, feito de respingos de Basil Davidson (autor de O Fardo do Homem Negro) e de clichés retirados do movimento da chamada negritude, corrente literária e emocional que entre as décadas de 1940 e 1960 fez furor entre os independentistas africanos, constituiu, afinal, uma profunda contradição com o método de análise marxista, sua periodização histórica, tipos de sociedade, modos de produção e dinâmicas que o materialismo histórico oferecia para a compreensão evolutiva das sociedades. É sabido que Marx e Engels tinham de África uma visão eurocêntrica, própria do século XIX, considerando as culturas e sociedades africanas estáticas, petrificadas, despóticas e irrelevantes, pelo que a colonização europeia surgia como uma necessidade para a integração do continente negro nos sendeiros do progresso. Se fosse coerente, Rosas entenderia a colonização como um processo de integração de África na vida planetária e veria nos métodos da colonização um queimar de etapas que levaria à mudança do modo de produção primitivo, antigo ou feudal (consoante as regiões africanas) em modo de produção capitalista. Rosas parece querer esquecer que, em Marx, a chamada acumulação primitiva de capital accionada pela colonização - implicando uso da força de trabalho, instituição da propriedade privada e monetarização económica - teriam necessariamente efeitos chocantes nas sociedades expostas a súbita mudança. Marxista, Rosas deixa de o ser para carpir as dores de um processo. Fá-lo, porém, com evidente má-fé.

3. Para um marxista coerente - que Rosas não é - não seria necessário ir a África para estudar as dores dos períodos de transição de formas "arcaicas" de organização social e económica para o capitalismo. Seria importante lembrar que a Inglaterra exerceu sobre o seu próprio povo aquilo de que Rosas vem cinicamente acusar os portugueses. O povo inglês foi, lembremo-lo, submetido durante mais de duzentos anos ao processo de acumulação primitiva de capital pelos industriais capitalistas, embaratecimento do custo do trabalho e até a formas de trabalho forçado a extremos que nunca se verificaram em África. Na Grã-Bretanha, durante quase dois séculos, as "mais-valias" que os capitalistas retiraram do trabalho dos trabalhadores excederam largamente as práticas colonialistas. Ao quadro de exploração oferecido por Charles Dickens nos seus romances, importa lembrar as famosas workhouses, centros de detenção destinados a pobres, onde milhões de britânicos foram confinados sem retribuição salarial e onde cerca de três milhões terão perecido por doença, maus-tratos e fadiga extrema.

4. Ora, na colonização da África portuguesa, tal "processo primitivo de acumulação primitiva" de capital foi curto. Terá começado por volta do início do século XX com o chamado regime do indigenato e terminou em inícios da década de 1960. Portugal conseguiu em sessenta anos em África aquilo que os britânicos realizaram ao longo de 200 anos; realizar uma dupla revolução económica e social que tratou de instaurar o capitalismo e a cidadania plena, finalmente alcançada em 1961, quando o bilhete de identidade de cidadão português foi atribuído a todas as populações dos territórios portugueses africanos. A passagem da uma economia de grandes lucros para os detentores dos meios de produção para uma economia distributiva, ou seja, de repartição da riqueza e dos bens em benefício das populações, alcançou na África portuguesa resultados nunca alcançados em economias africanas. Nem mesmo a África do Sul, o país mais rico de África, o conseguiu, dadas as características segregacionistas e racistas próprias do regime do Apartheid. A análise estatística do desenvolvimento social e humano atingido em Angola e Moçambique no início da década de 1970, oferece o quadro de um imenso sucesso de integração. Portugal tinha, em 1970, o melhor sistema de ensino do continente, o melhor sistema de saúde, a melhor legislação de inclusividade, as melhores práticas de favorecimento e ascensão social e, até, o mais rápido processo de harmonização social.

Miguel Castelo-Branco


Todos os Fiéis defuntos

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1 de novembro de 2017

Proposta de oração pela chuva



Caros diocesanos 

O nosso país tem sofrido este ano uma prolongada seca, que muito afecta o ambiente e as culturas. Os incêndios foram extremamente gravosos, com grande número de vítimas mortais e de feridos, além de muitos danos materiais e prejuízos económicos e sociais, que é urgente colmatar. Toda a solidariedade é devida a quem sofreu, toda a intervenção estatal e social é absolutamente prioritária. 

A realidade, também a natural e meteorológica, tem vários níveis de compreensão, que podem e devem convergir. À ciência compete a primeira explicação, a partir da observação e interpretação correcta dos fenómenos. Daqui se tiram conclusões para bem gerir e melhor prevenir os factos naturais.

Mas a natureza admite ainda interrogações mais profundas, que sondem o sentido último das coisas, para além do seu mero acontecer. Para um crente, a natureza é propriamente “criação”, dom inicial e permanente de Deus Criador. Na tradição bíblica, esse dom é confiado à humanidade, para que o administre com gratidão e corresponsabilidade. Os cristãos encontram nas palavras e atitudes de Jesus Cristo a luz e o estímulo para de tudo cuidarem e tudo recuperarem quando é caso disso. Quando se aproximava de algo ou alguém, Jesus transmitia sempre a vida recebida de Deus Pai e assim mesmo fazia e refazia tudo em seu redor. É o que assinalam as suas curas físicas e espirituais, chegando mesmo a acalmar tempestades. 

Nos dois milénios que o cristianismo já leva, esta atitude de Cristo repercutiu-se em muitos factos confirmados da vida dos santos, que com Ele estiveram inteiramente do lado de Deus para refazerem vidas, com repercussões felizes na própria natureza. Na verdade, respeitando os vários níveis e qualidades dos seres, tudo tem origem divina e com Deus se pode e deve manter e melhorar. 

É este o sentido da oração, pedindo a Deus o que Ele mesmo nos quer dar, em absoluta coincidência de vontade. O Missal Romano inclui orações por necessidades de vária ordem, também no que à natureza se refere. Na presente situação, proponho aos irmãos sacerdotes do Patriarcado de Lisboa que, quando a Liturgia diária o permita, celebrem a Missa para Diversas Necessidades, com a prevista Oração Coleta: «Deus do universo, em quem vivemos, nos movemos e existimos, concedei-nos a chuva necessária, para que, ajudados pelos bens da terra, aspiremos com mais confiança aos bens do Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo». Além disso, pode-se sempre juntar idêntica intenção na Oração Universal.

Com a oração insistente, mais coincidiremos com a vontade de Deus, que conta sempre com a nossa corresponsabilidade. Como disse Santo Afonso e o nosso Padre Cruz tanto repetia, «quem quer o que Deus quer, tem tudo quanto quer».


Lisboa, 30 de outubro de 2017
+ Manuel, Cardeal-Patriarca

Dia de Todos os Santos

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31 de outubro de 2017

SS. AA. RR., Os Duques de Bragança presentes no concerto oferecido pelos Reis da Holanda



Realizado ao início da noite de quarta-feira (11), no Teatro D. Maria II, o concerto que juntou Nynke Laverman, cantora neerlandesa, oriunda da Frízia, e a fadista portuguesa Cristina Branco, foi oferecido pelos reis da Holanda, Willem-Alexander e Máxima, para agradecer a hospitalidade portuguesa ao longo de três dias de visita de Estado.

Dom Duarte e Dona Isabel de Bragança, José Luís Arnaut e Maria Herédia e Francisco Pinto e Mercedes Balsemão assistiram ao espectáculo.








Fonte: VIP

30 de outubro de 2017

O bravo sipaio (1) landim, tropa de choque do exército africano português

Foto de Nova Portugalidade.

Garbosos, disciplinados e ferozes em combate, os sipaios landins foram durante décadas a espinha dorsal do exército da África Oriental portuguesa, prestando serviço nas terras do Índico português, mas igualmente nas parcelas asiáticas do Império. Os landins eram os vátuas, outrora destemidos guerreiros que serviram Gungunhana com lealdade no decurso das guerras contra o exército português. Após a rendição do grande chefe negro, os guerreiros landins prestaram voto de lealdade ao Rei de Portugal, constituindo-se em unidades de infantaria com funções de policiamento.

No decurso da Grande Guerra, lutaram ombro a ombro com as unidades do corpo expedicionário enviado a Moçambique para combater os alemães no norte do território e no Tanganica, então colónia alemã, dando provas de grande coragem e destemor. Depois, os landins passaram a polícias adstritos à rede administrativa colonial e a guarda dos mais importantes quadros coloniais, nomeadamente os governadores de distrito e o Governador-Geral de Moçambique.

MCB

(1) Sipaio (ou cipaio) vem de sepoy, palavra oriunda do persa sepāhī que significa soldado de infantaria.

Foto: Sipaio landim. NP agradece a António Botelho de Mello.

29 de outubro de 2017

A adúltera apedrejada

No último domingo, o 29º do tempo comum, a leitura do Evangelho era lapidar sobre o que, com toda a propriedade, se poderia designar como o fundamento cristão da laicidade: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21).
Infelizmente, este salutar princípio não foi tido em conta por um muito infeliz acórdão do Tribunal da Relação do Porto no qual, invocando-se desastradamente a Sagrada Escritura, se pretendeu justificar um tristíssimo caso de violência doméstica.
Com efeito, a título de justificação da leve pena imposta ao marido traído, que foi também o agressor da mulher infiel, lê-se: “a conduta do arguido ocorreu num contexto de adultério praticado pela assistente. Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem”.
É evidente que, em qualquer sociedade, o incumprimento de um dever de fidelidade é sempre grave, mais ainda se se trata de uma relação tão relevante como é a matrimonial. Mas, para a moralidade cristã, não faz sentido dizer que o incumprimento do pacto conjugal é vergonhoso e imoral quando praticado pela mulher, como se o adultério masculino não fosse igualmente grave!
O conhecido episódio bíblico da casta Susana é, a este propósito, muito significativo (cfr. Dn 13, 1-64). Instada a prevaricar com dois velhos sem escrúpulos que, em caso contrário, ameaçavam caluniar a sua pureza, a mulher de Joaquim preferiu manter-se casta, mesmo pagando com a vida a sua inocência. Graças a Deus, a providencial intervenção do jovem Daniel não só evidenciou que Susana não tinha nenhuma culpa, como provou o perjúrio dos idosos, que foram depois exemplarmente castigados.
Também o adultério do rei David, agravado pelo assassinato do general Urias, marido de sua amante, a mãe de Salomão (2Sm 11, 1-26), é uma lição bíblica de como Deus, embora punindo o adultério feminino, não castiga menos a infidelidade masculina, por muito que a sociedade – a de então, a do Código Penal de 1886 ou a de agora – seja mais permissiva em relação ao adultério masculino. Na realidade, aos olhos de Deus, qualquer cônjuge que gravemente incumpra os seus deveres de fidelidade conjugal incorre na mesma culpa, qualquer que seja o seu sexo que, para este efeito, é irrelevante.
Escreveu-se ainda no referido acórdão da Relação do Porto: “Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte”. É verdade: aí estão, por desgraça, os países islâmicos em que a sharia é a lei penal vigente. Mas esta citação, no contexto em que é feita, mais do que condenar tão desumano preceito, parece legitimá-lo, para efeito da desculpabilização do cônjuge agressor. Também há, infelizmente, sociedades em que se pratica a escravatura e até o canibalismo, mas não seria razoável que um magistrado invocasse esses casos para mitigar a culpa de quem incorresse em tão lamentáveis atitudes.
Quanto mais comum é um comportamento criminoso, mais necessário é que a lei seja severa na sua punição: por isso, faz sentido que a lei canónica continue a castigar com a excomunhão o aborto voluntário, mas já não seria lógico que mantivesse essa pena para os duelos, hoje inexistentes. Ora, infelizmente, a violência doméstica está longe de estar erradicada.
“Na Bíblia – acrescenta-se no referido acórdão – podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte”. É verdade que, no Antigo Testamento, previa-se a pena capital para este crime (Lev 20, 20; Deut 22, 21; Ezq 16, 38-40; etc.), mas depois Jesus Cristo, reformando a lei mosaica, revogou essa medida numa das mais belas páginas do Evangelho joanino (Jo 8, 1-11). O que ele não fez, nem permitiu que ninguém fizesse, à mulher adúltera, a todos os cristãos ficou, desde então, interdito, pois só quem nunca tivesse pecado poderia apedrejar um pecador…
Os escribas e fariseus levaram aquela mulher à presença de Jesus de Nazaré, alegando que “foi surpreendida em flagrante delito de adultério” (Jo 8, 4). Ora, mesmo não tendo eu nunca frequentado as modernas aulas de educação sexual, tenho entendido que o adultério não é um acto solitário, pelo que seria de esperar que também fosse apresentado a Jesus o cúmplice masculino. Por que não está presente?! Por que motivo a sanha daqueles escribas e fariseus se abate só sobre a mulher, se o seu cúmplice, com o qual foi apanhada, não só não era menos responsável, como podia ter até mais culpa, se porventura a tivesse seduzido ou forçado?! De facto, é iníqua esta discriminação contra as mulheres, bem como a farisaica condescendência com a culpa masculina, igualmente contrária aos princípios cristãos.
Também à laia de justificação, lê-se no polémico acórdão: “Com estas referências pretende-se, apenas, acentuar que o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher. Foi a deslealdade e a imoralidade sexual da assistente que fez o arguido X cair em profunda depressão e foi nesse estado depressivo e toldado pela revolta que praticou o acto de agressão”. Que o meritíssimo me desculpe mas, assim sendo, não deveria também dizer que foi a adúltera que teve o desplante de pôr a cabeça onde o extremoso marido tinha a moca, com pregos, com que a golpeou?!
O que os escribas e fariseus de há dois mil anos não se atreveram, logrou este acórdão do Tribunal da Relação do Porto, que não só apedrejou socialmente esta alegada adúltera, como atentou contra a dignidade de todas as mulheres e ofendeu os princípios humanitários do sistema jurídico português. Invocando-se a letra da Bíblia, contradisse-se o seu espírito que é, em Jesus Cristo, o mandamento novo da caridade, que, segundo São Paulo, “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13, 7). Os Estados não se podem permitir uma tal atitude, mas a sua justiça social nunca pode deixar de reconhecer a imensa dignidade do ser humano: qualquer que seja a sua culpa, cada mulher e homem, mais do que um mero súbdito de César, é imagem e semelhança de Deus.
Fonte: Observador