22 de outubro de 2017

O inferno passou por aqui!

Não basta que um governante não roube, nem mate, porque também por omissão pode faltar gravemente aos seus deveres, se não fizer o que devia ter feito.

Um jornalista perguntou uma vez ao cardeal Lustiger, já falecido, se acreditava na condenação eterna. O então arcebispo de Paris respondeu afirmativamente, como era de esperar de um católico coerente, mas depois, surpreendentemente, explicou que acreditava no inferno porque já o tinha visto! Perplexo, o entrevistador perguntou-lhe onde o vira, ao que o prelado, de origem judia, respondeu: Em Auschwitz, Treblinka, Dachau, etc. Se fosse hoje, o cardeal parisiense poderia acrescentar mais alguns lugares, como Pedrógão Grande, Mação e todas as outras povoações portuguesas que foram pasto das chamas nestes últimos meses.
Depois da tragédia de Pedrógão, todos pensámos: Nunca mais! Não todos, a bem dizer: o primeiro-ministro disse que os fogos iriam continuar, a então ministra da administração interna, a quem corresponde a tutela dessa área da governação, aconselhou resiliência às populações e um seu secretário de Estado até se deu ao luxo de recomendar aos cidadãos uma atitude mais pró-activa… Ante esta indiferença e conformismo governativo, não é muito de espantar que, num só dia, tenha deflagrado meio milhar de incêndios, que causaram a morte a mais de quatro dezenas de pessoas indefesas, destruíram por completo os bens de muitas famílias, dizimaram várias povoações e consumiram extensas zonas de vegetação. Em menos de meio ano, há já mais de uma centena de vidas humanas a lamentar, por manifesta negligência das autoridades, cuja incompetência é apenas comparável à sua descoordenação técnica e ineficácia operacional, não obstante os heroicos esforços dos bombeiros e das populações.
Um atentado terrorista, ou um terramoto, não são previsíveis; um furacão, ou um tsunami, só podem ser detectados com algumas horas de antecedência; mas estes incêndios ocorreram precisamente na época em que todos os anos, infelizmente, acontecem e por isso, mais do que previsíveis, eram certos, se nada se fizesse para os evitar ou extinguir. Também se soube, com antecipação, que este mês de Outubro iria ser excepcionalmente quente, pelo que ninguém – muito menos o governo ou a protecção civil – pode agora alegar qualquer imprevisibilidade, nem o desconhecimento, ou a excepcionalidade, das circunstâncias meteorológicas, aliás comuns a outros países.
Ante a manifesta incompetência do executivo, sempre muito atento às sondagens sobre a sua popularidade, mas alheado das desgraças que afligem o país, o chefe de Estado protagonizou, pelo contrário, uma atitude notável. Não só cancelou todos os seus compromissos protocolares, como se pôs a caminho das zonas mais afectadas, para prestar às populações, ainda em estado de choque e justamente indignadas, um apoio de que urgentemente careciam. Talvez alguns possam pensar que essa manifestação de afecto pelas vítimas dos incêndios é meramente sentimental, mas a verdade é que o presidente da República se expôs a ser incompreendido pelos que tanto sofreram pela incúria do Estado de que ele é, afinal, o máximo representante. Coragem que, ao que parece, faltou ao primeiro-ministro, à demissionária ministra da administração interna ou aos seus secretários de Estado …
Não é por acaso que, na Bíblia, a condenação eterna é muitas vezes representada pelo flagelo do fogo. Na pregação de Jesus Cristo, é recorrente a comparação do inferno com a geena, a lixeira de Jerusalém onde os detritos eram queimados (cf. Mt 5, 29-30; 10, 28). Tomás de Aquino afirma que a imagem do fogo pode não ser meramente simbólica, na medida em que traduz de forma realista o imenso sofrimento dos condenados.
É significativo que, na parábola do juízo final (Mt 25, 31-46), não são os assassinos, os idólatras, os adúlteros, os avarentos ou os ladrões que são excluídos do céu. Quem são, então, os condenados ao inferno?! Não são os que fizeram o mal, mas os que não fizeram o bem que podiam e deviam ter feito: os que não deram de comer nem de beber aos famintos e sedentos; os que não receberam os peregrinos; os que não vestiram os nus; os que não visitaram os presos, nem os doentes. Não se condenaram pelo mal que praticaram, mas pelo bem a que estavam obrigados e que omitiram.
Foi agora tornada pública a acusação contra o anterior primeiro-ministro socialista, por mais de trinta crimes alegadamente cometidos no exercício das suas funções. Quero crer que o actual chefe do governo não incorre nas supostas culpas daquele seu predecessor e correligionário, de quem foi, por ironia do destino, ministro da administração interna. Mas não basta que um governante não roube, nem seja corrupto: também pode faltar gravemente aos seus deveres públicos por omissão do que devia ter feito e não fez. Se uma tal negligência for responsável pelas mais de cem vítimas mortais já verificadas, é certamente criminosa.
Fonte: Observador

20 de outubro de 2017

Somos uma democracia há séculos: o mito da preponderância da nobreza no Portugal Antigo



O filão de mitos a respeito da suposta preponderância da fidalguia no Portugal Antigo merece-nos os maiores cuidados, pois não só são amiúde inverídicos, carregando lamentáveis confusões, como prolongam preconceitos instilados ao longo do século XIX, podendo-se, pois, dizer que são mera propaganda que urge rebater.

Na fase tardia do paradigma corporativo, ou seja, no século XVII, a sociedade repartida em três estados (Clero, Nobreza e Povo) já só funcionava como largo quadro de referência, posto que a realidade social era bem mais complexa e em permanente mudança. A mudança iniciara-se em finais da Idade Média, mas no século XVI era já bem patente. A ascensão dos letrados e a queda dos fidalgos parecia acompanhar uma dinâmica social irreprimível, na qual o apoio da Coroa parecia cada vez mais inclinar-se para o favorecimento do Povo. A prová-lo, a legislação produzida durante o governo de Dom Sebastião marcou uma grande mudança na governação das cidades. Em 1572, o Rei afirmava-o claramente numa lei sobre o estatuto dos governantes da capital portuguesa: “daqui em diante, haja na Câmara um presidente fidalgo principal e três vereadores (do braço popular) que sejam seus desembargadores e sigam os cargos que adiante vereis” (Livro de Reis, vol. VIII, pág. 88).

Esta evolução democrática tornou-se evidente na estruturação da sociedade portuguesa do século XVII. Depois das pessoas de condição “vil” – actividades braçais – encontrava-se um grupo a que os tratadistas chamavam de “Estado do Meio” ou “Classe Média do Antigo Regime”, ou seja, aquelas que desempenhavam funções inicialmente consideradas “mecânicas” (lentes universitários, tabeliães, livreiros, artistas, cirurgiões, boticários) mas que tinham sofrido um processo de ascensão social que as colocava junto do estado de nobreza. Também os desembargadores eram considerados nobres, tendo direito a cavalo e porte de armas. Depois, advogados e escrivães passaram a gozar de privilégios similares aos dos nobres. Ao contrário da nobreza generativa – aquela que se transmitia de pais para filhos – a sua nobreza era reconhecida no quadro das funções que desempenhavam.

O mesmo vinha acontecendo paulatinamente aos produtores agrícolas. Em finais do século XVI, os lavradores – ou seja, proprietários de terras – passaram a ser considerados em estado de nobreza, sendo isentos de obrigações militares. O mesmo acontecia aos concelhos. No século XVII, os concelhos constituíam autênticos senhorios colectivos com atribuição de poderes públicos equivalentes aos nobres, animados por elites locais saídas do povo e que se pautavam pelos valores sociais e de honra próprios da nobreza de linhagem. De facto, eram cavaleiros, ou seja, tratados como se fossem da pequena nobreza, pelo que tais homens não podiam sofrer a humilhação de ser descavalgados – ou seja, privados da sua montada. Descavalgar um homem da aristocracia popular era crime severamente punido.

Também a dinâmica imperial permitiu que largas faixas da população envolvida na gestão e defesa do Ultramar ultrapassassem a condição social em que haviam nascido. Ao partirem para o Oriente ao serviço da Coroa, aos filhos dos membros da Casa dos Vinte e Quatro era reconhecida a condição de nobreza, o mesmo acontecendo depois com a maioria dos militares de pequena patente que saíam a barra do Tejo para o cumprimento de missões no Norte de África, Brasil e Oriente; daí a conhecida expressão de “Fidalgos do Cabo da Boa Esperança”.

Dir-se-ia que pelos finais do Antigo Regime, a nobreza de mérito – ou seja, aquela saída do serviço do Rei – sobrepujara há muito a velha nobreza de sangue. Nas Cortes mandadas reunir por Dom Miguel para o aclamar Rei, dois terços dos representantes da nobreza eram titulares há menos de três gerações, ou seja, até a nobreza titular deixara de ser uma casta fechada de linhagens que se perdiam na bruma dos tempos, passando, ela também a ser uma ordem muito porosa e aberta à crescente entrada de homens de valor saídos do povo.

Miguel Castelo-Branco

Para ler mais:
Ângela Barreto Xavier, António Manuel Hespanha. A representação da sociedade e do poder: paradigmas políticos e tradições literárias, in História de Portugal (dir. Matoso), vol. IV. Lisboa: Círculo de Leitores, 1993.
António Manuel Hespanha, História das instituições: épocas medieval e moderna. Coimbra: Almedina, 1982.


Fonte: Nova Portugalidade

19 de outubro de 2017

SS. AA. RR., D. Duarte e Isabel de Bragança visitaram Casa do Combatente no Funchal



Dom Duarte Pio, Duque de Bragança, visitou ontem a Casa dos Combatentes, onde incitou os presentes a "continuarem a não perder a esperança" e a "fazer algo mais" por todos os combatentes que desde sempre defenderam o País.
Fazendo-se acompanhar pela esposa, Dona Isabel de Bragança, e pelo comandante operacional e da Zona Militar da Madeira, general Carlos Perestrelo, Dom Duarte Pio foi recebido à entrada das instalações pela Direcção do Núcleo do Funchal da Liga dos Combatentes e por um grupo de combatentes, a quem saudou e com quem partilhou algumas memórias pessoais alusivas à sua permanência como tenente piloto aviador da Força Aérea na ex-província de Angola, entre 1968 e 1971.
De acordo com uma nota enviada pela Casa dos Combatentes ao JM, no interior das instalações, o Duque de Bragança teve oportunidade de observar as suas alterações, com destaque para a Capela de São Nuno de Santa Maria, de quem é devoto, o Gabinete Médico e de Apoio Psicológico e, por último, o miradouro que hoje serve de esplanada do bar, onde foi servido um Madeira de Honra.
Durante este momento, o presidente do Núcleo do Funchal da Liga dos Combatentes, tenente coronel Bernardino Laureano, usou da palavra para agradecer a Dom Duarte Pio "a honrosa visita", fazendo referência não só à sua condição como representante da Casa Real Portuguesa, mas também por ter sido combatente e servido as Forças Armadas Portuguesas em terras de África.
"Por fim", adianta a nota, "dirigindo-se aos combatentes presentes", o Duque de Bragança "agradeceu o convite, referindo que a Casa dos Combatentes no Funchal era um exemplo a nível nacional e de prestígio para a Liga dos Combatentes, felicitando todos os elementos pelo trabalho desenvolvido".
Já prestes a abandonar as instalações, Dom Duarte Pio visitou o monumento de São Nuno de Santa Maria que se encontra no parque de estacionamento e, antes de se despedir, "deixou uma mensagem de simpatia e admiração por todos, prometendo voltar ao local sempre que venha à Região". 



Fonte: JM Madeira e FN

18 de outubro de 2017

Em novo dia de luto, a NP ajuda-o a perceber o drama dos incêndios

Foto de Nova Portugalidade.

Ao contrário de uma certa crença muito difundida, o processo de desarborização – a chamada crise florestal – não é um fenómeno recente, mas iniciou-se nos séculos XV e XVI com a destruição da economia rural medieval. Arroteamentos, alargamento do espaço destinado ao pastoreio extensivo e procura de madeira «grossa» destinada aos estaleiros navais de Lisboa, Porto, Aveiro, Viana e Lagos, provocaram a destruição das paleo-florestas.

No início do século XIX, quase todas as terras estavam nuas de arvoredo e os bosques das terras altas recebiam golpe sobre golpe num país onde a lenha rareava. Os quadros oferecidos pela literatura portuguesa de base provinciana são eloquentes desse país escalvado, poeirento e pedregoso.

Em 1867, o Relatório da Arborização, primeiro estudo sério produzido em Portugal, mostrava que apenas 7% do território era arborizado. Portugal era um imenso deserto. Com a criação do Regime Florestal (1901), o governo da monarquia apontou o rumo para a rearborização do território entre o Minho e o Tejo. Contudo, a implantação da república, a crise económica, a penúria crónica e a desorganização do Estado tornaram impossível responder à grave crise ambiental que assumia proporções de desastre. Teve de se esperar pelo advento do Estado Novo para que entrasse em execução o Plano de Povoamento Florestal (1938), inspirado nos programas então em voga nos EUA e Europa, o qual prolongou-se até 1972 e foi efectivamente cumprido.

Optou-se pela plantação extensiva do pinheiro bravo, a melhor solução para impedir a erosão dos solos, mas igualmente pela criação de uma polícia florestal e quadros técnicos do Estado com a incumbência de preservar o património florestal. Em 1965, 33% da superfície do país estava já coberta de matas. Os incêndios rareavam. A área de fogos nas décadas de 1950 e 1960 não excedia os 5000 hectares/ano. Veio a revolução, as estruturas entraram em colapso e só em 1975 arderam 80.000 hectares ou seja, o equivalente à soma de todos os incêndios verificados no país entre 1951 e 1974. A devastação continuou. Entre 1976 e 1981, a área anual de fogos foi de 40.000 hectares. O que restava da indústria das florestas entrou em colapso ao longo das décadas de 1980 e 1990. Desde então, verifica-se uma perda anual de 2% da superfície da mancha florestal.

A agravar o quadro de desastre, a indústria das celuloses entrou em força, implantando o famigerado eucalipto, espécie voraz que devastou os solos, a mata e a flora nativas, esgotando igualmente os lençóis freáticos. Ao longo das últimas duas décadas, tendo perdido competitividade, a indústria do papel entrou em recessão. Não sabendo o que fazer com o que restava das nossas florestas, o “poder autárquico” aproveitou-se da falta de autoridade do poder central e lançou mão à destruição do mínimo de racionalidade ainda existente. A absurda política de abertura de estradas para nenhures, as célebres “rotundas”, os loteamentos, os “parques industriais” que jamais passaram da fase de destruição dos bosques pré-existentes, os campos de golfe e “projectos de urbanização” que retiraram populações de cidades e vilas para a conurbação dos velhos centros urbanos, empurrando-as para áreas de bosque, deixaram-nos à beira do precipício. Ora, como as matas não dão votos, e como todo o regime vigora nesta criminosa inconsciência demagógica de “obras”, o que resta da floresta portuguesa está condenada à desaparição.

Não, a floresta europeia não está em regressão, mas em expansão. A excepção é Portugal. Porquê ?

Miguel Castelo-Branco


16 de outubro de 2017

O autoclismo

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 ...."Ir-me embora seria o caminho mais fácil, ia ter as férias que não tive".

Foi  isto o que o agarradinho e fedorento dejecto disse hoje. Haja quem urgentemente prima o autoclismo.


Nuno Castelo-Branco


A Portugalidade acaba de ganhar trinta novos Santos

Destruir o mito da "boa colonização holandesa do Brasil": os massacres de Cunhaú e Uruaçu

Foto de Nova Portugalidade.

A Igreja brasileira - e, por isso, a Portugalidade - acaba de ganhar trinta novos santos. São os mártires de Cunhaú e Uruaçu, friamente assassinados pela Holanda, que invadira o Brasil e então lá se encontrava como potência ocupante, no século XVII. A ocasião permite - obriga, até - reflexão sobre a estranha deturpação que se vem fazendo do papel da Holanda no Brasil, programa que sabemos confundir-se com a difamação de Portugal por muita historiografia lusófoba e Portugal e no Brasil.
Filha de muitos anos de propaganda anti-portuguesa nas escolas do Brasil, essa peculiar leitura da História ataca os construtores portugueses do país e exalta como bons, decentes e avançados os invasores holandeses. É outro exemplo do auto-ódio que foi elevado à dignidade de verdade por quem - e assim é com tantos governos de países portugueses, e especialmente com o do Brasil - faz da mentira a sua profissão. Mas este é especialmente extraordinário, pois o que pede do brasileiro - e o brasileiro é o português, mas sul-americano e com o seu próprio Portugal independente do Portugal europeu - é que grite de júbilo pela invasão da sua terra por povo estranho, pela violação das suas mulheres, destruição das suas aldeias e por série temível de saques, torturas, latrocínios e massacres.
Das incontáveis brutalidades cometidas pela Holanda em terra brasileira, há poucas mais repelentes que as de Cunhaú e Uruaçu. A primeira deu-se a 16 de Julho de 1645. Uma coluna holandesa, comandada por um tal Jacob Rabi, juntou-se a número indeterminado de índios potiguares e desceu sobre o Engenho Cunhaú, em Canguaretama. O povo do engenho encontrava-se a ouvir missa do seu padre, um tal André de Soveral, quando a tropa ocupante por lá entrou. Os detalhes do que se terá passado depois são de difícil, porque dura, explicação. Como os outros do aldeamento, o padre Soveral foi torturado; depois, os potiguares aliados da Holanda e às ordens de Rabi arrancaram-lhe o coração pelas costas. Os mortos foram mais de 70. Em reconhecimento do seu martírio às mãos do invasor, o Padre André de Soveral foi beatificado em 5 de Março de 2000 pelo Papa São João Paulo II.
A três de Outubro de 1645, novo acto de horror, nova manifestação de ódio irrefreado, novo motivo de vergonha a quantos ousam hoje cantar as virtudes da conquista holandesa. Cunhaú causara compreensível temor entre a população luso-católica e esta, acossada, refugiara-se na costa. Rabi e seu bando seguiram-nos e, encontrando grupo de oitenta, tentaram forçá-los à conversão ao calvinismo. Se o fanatismo religioso teve origem em J. Rabi, um judeu holandês, é impossível saber; é de crer que o acompanhariam presbíteros calvinistas, e que teria partido deles a exigência de apostasia. O que sabemos é que a população, embora cercada, humilhada e aterrorizada, recusou apostatar. O sacerdote português, Padre Ambrósio Ferro, foi supliciado e forçado a assistir à chacina de todos os outros. A um deles, um camponês chamado Mateus Moreira, foi arrancado, como ao Padre Soveral de Cunhaú, o coração pelas costas. Moreira terá deixado o mundo com brado de coragem e fé: "Louvado seja o Santíssimo Sacramento!" foi o que exclamou no momento do fim. Hoje, como o Padre André de Soveral e 28 outros mártires, Moreira foi canonizado pelo Papa Francisco em Roma. São trinta novos santos portugueses, brasileiros e da Portugalidade.
A ocupação holandesa do Brasil terminou em 1654. É prova infeliz do estado da educação brasileira que tantos vejam neste período de expropriações, perseguições e massacres uma época de progresso para o Brasil. Mas dessa mentira falará a Nova Portugalidade futuramente.

15 de outubro de 2017

O milagre do sol que não dançou…

Ante um acontecimento extraordinário, o céptico pura e simplesmente nega o facto, enquanto o fideísta – cujo lema seria a máxima ‘creio, porque é absurdo’ – não admite que o misterioso acontecimento possa ser racional. Entre estas duas atitudes extremas, que contrapõem a fé à razão, cabe uma posição intermédia, que é a católica: o milagre, não obstante o seu carácter extraordinário, pode ter uma explicação científica. A teologia, com efeito, reconhecendo a emergência do sobrenatural e a incompreensibilidade de Deus, não se abstém, contudo, de tentar uma justificação racional – como conhecimento científico que é – dos fenómenos de origem transcendente.
Que se pode dizer, científica e teologicamente, sobre o milagre do sol, acontecido na última aparição mariana, a 13 de Outubro de 1917? Há quem negue que tenha ocorrido algo extraordinário, não obstante o relato unânime de 50 a 70 mil testemunhas oculares, de todas as idades e condições. Alguns destes depoimentos, como ontem o Observador noticiou, foram agora publicados pelo Engº Bernardo Motta, no seu excelente trabalho sobre esta questão (O Milagre do Sol segundo as testemunhas oculares, Lucerna 2017). Também há quem pretenda que o sol bailou mesmo diante daquela multidão. Claro que, se assim tivesse sido, teria sido visto em todo o mundo em que, a essa hora, o sol era visível, pois o astro-rei não é uma exclusividade daquele lugar, província, país ou continente.
Se, na Cova da Iria, pareceu que o sol dançava, mas no resto do mundo não consta que se tivesse desviado da sua órbita natural, poder-se-ia admitir que se tratou de uma alucinação colectiva. Mas essa suposição não é crível, porque o fenómeno foi verificado também noutros lugares, nomeadamente em Minde, Alburitel, São Pedro de Moel – pelo poeta Afonso Lopes Vieira – e até Leiria.
Que toda aquela multidão tivesse tido uma visão simultânea, não obstante as suas diferentes atitudes – havia crentes, mas também incrédulos e ateus – e diversas localizações, também não parece razoável: fenómenos místicos desta natureza não são experimentáveis por uma tão ingente e variada multidão.
Resta a explicação científica deste fenómeno extraordinário. O Prof. Gonçalo Xavier de Almeida Garrett, testemunha ocular do milagre e professor catedrático da Universidade de Coimbra, foi o primeiro a propor uma interpretação meteorológica para ‘a dança do sol’. Mas foi o Prof. Diogo Pacheco de Amorim quem formulou a hipótese de aquele efeito óptico ter sido consequência de uma lente de ar. Este é também o parecer do cientista e teólogo Padre Stanley Jaki, doutorado em teologia sistemática pelo Instituto Pontifício de S. Anselmo, em Roma, e em física, pela Universidade de Fordham, em Nova Iorque; galardoado com os prémios Lecomte du Nouy, em 1970; e Templeton, em 1987. É autor de ‘God and the Sun at Fátima’ (Port Huron, Michigan 1999, Real View Books), uma extensa investigação de cerca de 400 páginas sobre o milagre do Sol; ‘The Sun’s miracle or of something else’ (Port Huron, Michigan 2000, Real View Books, 32 págs.); e ainda do artigo sobre o ‘Milagre do sol’, na notável ‘Enciclopédia de Fátima’ (Principia, Estoril 2007, págs. 355-358).
Segundo Jaki, “a explicação está no facto de duas correntes de vento que se encontrem num ângulo poderem fazer com que uma massa de ar entre em movimento rotativo. Caso haja uma inversão da temperatura, essa massa não só rodará como também será puxada para cima e para baixo, e muito provavelmente seguindo uma órbita elíptica. O tamanho de uma tal lente de ar pode variar entre poucos metros e 30 ou mais metros. Se, além disso, se encher de partículas de gelo, poderá fragmentar a luz do sol em várias, ou pelo menos algumas, cores do arco-íris, tal como foi observado em Fátima. Um fenómeno semelhante ocorre aquando da formação de tornados.”
Talvez alguns crentes fiquem decepcionados com esta explicação científica do que aconteceu na Cova da Iria no dia 13 de Outubro de 1917, mas pior seria se o milagre supusesse uma impossibilidade física, em cujo caso não seria possível a sua compreensão racional. Ora a fé, embora ultrapasse a razão, não a contradiz: nunca o sobrenatural é absurdo. Como dizia Chesterton, “o sobrenatural é natural”. “Se considerarmos que aquilo que foi observado naquele dia memorável na Cova da Iria – explica Jaki – foi uma lente de ar, teremos em mãos a possibilidade de encará-lo como um milagre físico sem nenhuma impossibilidade evidente. Entre as impossibilidades estaria uma mudança súbita da posição do sol, para já não falar na sua aproximação da superfície terrestre”.
Quer isto dizer que, afinal, não houve milagre nenhum na última aparição mariana na Cova da Iria?! Claro que houve, como pedira a Lúcia a 13 de Julho, para que todos acreditassem nas aparições, e a que a Senhora mais brilhante do que o sol se comprometeu para a sua última aparição. Como esclarece Jaki, um cientista que é também um homem de fé – dois atributos que não só não se contradizem como se completam – “o carácter milagroso dessa lente de ar deve ser procurado na formação que se criou por cima da Cova da Iria e na previsão do momento feita por Lúcia meses antes, bem como no facto de a lente de ar, sendo tão frágil, ter mantido a sua forma durante mais ou menos 15 minutos depois de descrever dois ou três percursos elípticos na direcção da terra. A explicação do acontecimento por meio de uma lente de ar dá conta, de forma satisfatória, de um complexo conjunto de ocorrências que são miraculosas na medida em que são imprevisíveis e muito raras”.
Em caso algum a vidente, ou qualquer outra pessoa, poderia produzir artificialmente aquele acontecimento, nem sequer prever, com noventa dias de antecedência, o dia e hora exactos em que tão raro e anómalo fenómeno meteorológico iria ocorrer, precisamente na Cova da Iria! Aliás, foi porque era público e notório que iria haver um milagre, que lá afluíram entre 50 e 70 mil pessoas! A mãe da Lúcia, temendo que nada de extraordinário acontecesse e a vida da sua filha perigasse, fez questão de a acompanhar. Que a vidente tenha previsto e anunciado, com três meses de antecipação, o que todos, crentes e incrédulos, viram, é, de facto, um grande milagre!
Deus, ao criar o mundo, dotou-o de leis, que são a partitura que explica, cientificamente, a harmonia universal. Mas, como não se esgotou a sua divina inspiração, de vez em quando surpreende-nos com um improviso que, sem contradizer as leis da natureza, desafia a nossa razão e interpela-nos. Não será isto, afinal, o milagre?
Fonte: Observador

14 de outubro de 2017

Livro: “Nas Teias de Salazar D. Duarte Nuno, entre a Esperança e a Desilusão” de Paulo Drumond Braga

teias-de-salazar


Uma biografia escrita numa perspectiva mais pessoal, que denuncia as relações entre o Estado Novo, o Presidente do Conselho e o Chefe da Casa de Bragança, S.A.R. Dom Duarte Nuno.
O livro recorre a testemunhos da família, incluindo os dois filhos do biografado sobreviventes, SAR D. Duarte Pio e SA D. Miguel.
Contém caderno com imagens e testemunhos do filho do biografado, o actual duque de Bragança.