20 de julho de 2017

Tancos, as armas e a ópera bufa

A performance do CEMGFA não deixa de representar um grande “sacrifício pela Pátria”, o que não deixará de ser recompensado no próximo dia 10 de Junho com republicaníssima “Ordem da Tristíssima Figura”


“O Homem é o Homem e a sua circunstância”
Ortega y Gasset




A ópera continua… A única coisa que parece certa no meio de tudo o que se passou é o facto das autoridades portuguesas – sejam elas do âmbito da Defesa, das Forças Armadas, das Forças de Segurança, dos Serviços de Informações, da Justiça, enfim, de toda a parafernália que enforma o tão decantado “estado de direito democrático” – andarem à deriva e não terem a mais pálida ideia do que se passou e como se passou!
Existem algumas perguntas óbvias que é necessário fazer, dado o assunto ter caído na praça pública. E a primeira é já esta: porque é que o evento, dada a sua delicadeza, caiu no domínio público (que se saiba o furto não foi descoberto por nenhum jornalista)? A que se deve seguir a questão de se saber quando foi feita a última inspecção aos paióis? Quem tinha acesso aos mesmos? O que é que lá havia efectivamente (desculpem, mas depois de tudo o que já foi dito, tenho dúvidas se alguém sabe a lista do material lá existente)? Como é que este tipo de informação foi parar às mãos de hipotéticos bandidos? Como é que os paióis foram violados e quando (e o “quando” pode ser diferentes vezes…)?
Finalmente é necessário saber (a quem investiga o caso, obviamente) que relatórios foram feitos ao longo do tempo, a fim de avaliar os verdadeiros responsáveis em todo este âmbito.
Também seria curioso descortinar quem fez a fuga de informação para o jornal “El Espanol”, que revelou a lista do material roubado, ou furtado (vejam bem onde chega a discussão!), complementada com um artigo arrasador do correspondente, em Lisboa, do Jornal “El País”, e que nos expõe ao ridículo! E é caso para perguntar, se a notícia é falsa porque não se levanta um processo ao jornal?
Pelo meio desta surrealista situação apareceram umas almas penadas, cheias de teias de aranha, a arengar que tudo não passou de um “golpe da direita” – como se houvesse alguma “direita” – para prejudicar o Governo. Não há pachorra!
Tudo piorou, porém, com o regresso do primeiro-ministro do remanso das suas férias, quando à revelia do que se tinha dito até então, tudo foi desvalorizado; deixando o roubo de ser grave, tão pouco perigoso sendo, afinal, todo o mundo competente, não havendo lugar a demissões! E até os dois generais que se demitiram por não concordarem com tanta pouca vergonha estavam era ressabiados (como puseram a correr). Sendo que eu ainda me lembro que a pior alcunha que se podia pôr a um cadete da Academia Militar ou da Escola Naval era o de “sabujo”. Infra sabujo.
Num passe de mágica o assunto morria ali, ao mesmo tempo que se passava um atestado de menoridade mental à generalidade da população.
Soube-se entretanto, que o CEME, numa manobra táctica inspirada provavelmente no “emprego de armas de tiro tenso no ataque aos pontos de cota mais alta”, já não quer os paióis de Tancos para nada, andando afanosamente à procura de alternativa. Logo agora que o senhor ministro, na sua cândida magnanimidade, tinha aberto os cordões à bolsa e mandado reparar a rede e o sistema de videovigilância. Não se faz!
Para o cenário da ópera (bufa) ficar completo o PM e o MDN atiraram com o sorridente CEMGFA para a frente dos microfones (que, supostamente representava, no momento, todos os militares), ficando eles atrás do dito, com ar de quem estava a levar um clister – que momento de glória, senhor general! – para finalmente nos elucidar e para nosso descanso, que afinal a maioria do material desaparecido estava para ser abatido e só valia 34.000 euros! (esquecendo-se convenientemente de dizer que o material obsoleto não deixa de ser perigoso e que o grave de tudo tenha sido a violação dos Paióis…).
Sem embargo confessou ter levado um “murro no estômago”, o que apesar se ser uma expressão infelizmente apenas metafórica, lhe deve ter afectado o raciocino e as vértebras da coluna. Murro, que não alterou a boa disposição para a sardinhada que mandou preparar no dia seguinte, em S. Julião da Barra, para os seus colaboradores mais próximos.
Melhor senso teve o pessoal da Antiga Escola Prática de Engenharia que cancelou as cerimónias anuais do dia da Arma, a 14 de Julho, devido aos tristíssimos eventos ocorridos e ao ambiente de cortar à faca que se vive.
A Instituição Militar está de facto, em queda livre. A performance do CEMGFA não deixa de representar, todavia, um grande “sacrifício pela Pátria”, o que não deixará seguramente de ser recompensado no próximo dia 10 de Junho com a atribuição pelo PR da republicaníssima “Ordem da Tristíssima Figura”, grau latão, arrematando-se a coisa, no fim, com uma “selfie”.
Se o CEME tem sido “brilhante” na sua actuação, o CEMGFA consegue superá-lo. Compreende-se, é um superior hierárquico! Os professores/instrutores que ensinam “Comando e Liderança” aos cadetes e oficiais, já têm aqui exemplos a apontar. Daquilo que se não deve fazer.
Oficial Piloto Aviador
Fonte: Observador

19 de julho de 2017

Apóstola dos apóstolos



A 3 de Junho de 2016, Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, o Papa Francisco, através do seu prefeito para a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Cardeal Robert Sarah, decretou que a celebração litúrgica de Santa Maria Madalena passasse a ser festa, a realizar todos os anos no dia 22 de Julho, que era já o da sua memória.

“Na actualidade, quando a Igreja é chamada a reflectir mais profundamente sobre a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina – lê-se no respectivo decreto – pareceu conveniente que o exemplo de Santa Maria Madalena fosse também proposto aos fiéis de uma forma mais adequada. Com efeito, esta mulher conhecida por ter amado Cristo e por ter sido muito amada por Cristo, chamada por São Gregório Magno ‘testemunha da divina misericórdia’ e por São Tomás de Aquino ‘a apóstola dos apóstolos’, pode ser hoje proposta aos fiéis como paradigma do serviço das mulheres na Igreja”.

A este propósito, escreveu o arcebispo Arthur Roche, secretário da Congregação para o Culto Divino: “foi João Paulo II quem dedicou uma grande atenção, não só à importância das mulheres na missão do próprio Cristo e da Igreja, mas também, em particular, o especial papel de Maria de Magdala, como sendo a primeira testemunha que viu o Ressuscitado, e a primeira mensageira que anunciou a ressurreição do Senhor aos apóstolos (cfr. Mulieris dignitatem, n. 16)”.

Questão mais difícil é a de apurar a historicidade da tradição em relação a Santa Maria Madalena. No Ocidente, sobretudo depois de São Gregório Magno, identificou-se, como sendo a mesma pessoa, a Maria Madalena que, com outras discípulas, acompanhava o Mestre; a pecadora que, em casa de Simão, o fariseu, Jesus perdoou; e a irmã de Lázaro e de Marta.

A exegese actual não corrobora essa identificação das três eventuais personagens bíblicas numa só. A protagonista da unção em casa de Simão e que é apenas referida como sendo “pecadora naquela cidade” (Lc 7, 37), não parece ser Maria de Magdala, nem a homónima irmã de Lázaro e de Marta. Contudo, é provável que a confusão entre Maria Madalena e a tal mulher “pecadora naquela cidade” tenha originado a má fama que, desde então, persegue a apóstola dos apóstolos.

Maria Madalena foi uma grande santa, porque amou muito e foi também muito amada por Cristo Nosso Senhor. Não ao jeito que certos ignaros gostam agora de romancear, em novelas de cordel que talvez sejam best-sellers comerciais, mas que nada têm de verídico, nem de verosímil. Desmente-os a modesta reverência que a boa mulher de Magdala sempre dispensa ao seu Mestre e Senhor, a quem trata com indiscutível amor, mas também com a devoção devida pela criatura ao Criador. Por isso, quando finalmente descobre Jesus naquele que antes julgara ser o hortelão, não o trata familiarmente pelo nome próprio, como seria de esperar entre cônjuges ou amantes, mas com a deferência que a discípula deve ao seu Mestre. Também o famoso “noli me tangere” (Jo 20, 17) que Jesus opõe ao ímpeto da sua esfusiante alegria, quando por fim o reconhece, assinala, sem lugar para dúvidas, a distância sempre observada entre a humilde serva e o seu divino Senhor.

A santa de Magdala não esgota a sua fidelidade nas lágrimas choradas junto à Cruz de Jesus (cfr. Jo 19 25): a sua fé afirma-se sobretudo na gloriosa ressurreição do seu Mestre e Senhor, de que ela será constituída, por especialíssima graça, primeira testemunha, como agora se diz no hino das laudes da sua festa litúrgica.

Maria Madalena foi testemunha de Cristo ressuscitado e foi quem deu testemunho d’Ele aos apóstolos: a elevação a festa da sua comemoração litúrgica corresponde ao reconhecimento eclesial da sua qualidade de apóstola, pois também os Doze são desse modo celebrados pela liturgia eclesial. “Por isso – como escreveu o secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos – é justo que a celebração litúrgica desta mulher adquira o mesmo grau de festa dado às celebrações dos apóstolos no Calendário Romano Geral e que se destaque a especial missão desta mulher, que é exemplo e modelo para todas as mulheres na Igreja”.

Se Maria Madalena, sem ter nunca recebido o sacramento da Ordem, em nenhum dos seus três graus, pôde ser e de facto foi apóstola, também todas as mulheres cristãs, sem necessidade de outros sacramentos que não os da iniciação cristã, podem e devem ser – sejam leigas ou consagradas, solteiras ou casadas – não só apóstolas mas, como Santa Maria Madalena, apóstolas de apóstolos!


P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA

16 de julho de 2017

‘Nós queremos Deus!’

A Igreja católica foi a única instituição que apoiou e defendeu os polacos no seu processo de libertação do comunismo.

É sabido que a opinião pública internacional não gosta de Donald Trump e que os meios de comunicação social tudo fizeram para impedir a sua eleição como presidente dos Estados Unidos da América. Em vão. Se Watergate foi o expoente máximo do poder da comunicação social, ao lograr a demissão do presidente Richard Nixon, a eleição de Trump foi talvez o seu momento mais baixo porque, apesar do seu empenho em denegrir o candidato republicano, o eleitorado escolheu-o para a presidência dos USA.
Também na Europa é politicamente correcto apresentar Trump como uma figura menor, um sujeito brejeiro e ordinário que, para além de ser uma nulidade pessoal, é uma desgraça para os Estados Unidos da América e um perigo para a paz mundial. É paradoxal que não poucos ‘democratas’ se vejam obrigados a deplorar o sistema que possibilitou a eleição de um tal energúmeno…
Seja. Donald Trump não é, decididamente, o meu ídolo, nem reúne todos os predicados recomendáveis para um presidente dos Estados Unidos da América; mas concedo-lhe o benefício da dúvida e procuro ajuizá-lo pelos seus actos e não pelos preconceitos que alguns, maldosamente, alimentam a seu respeito.
Uma recente intervenção pública de Donald Trump fez agora história: o seu memorável discurso do passado dia 6, em Varsóvia. O presidente norte-americano falou na presença de muitos milhares de polacos e das principais autoridades do país, nomeadamente o prémio Nobel da Paz e principal obreiro, com São João Paulo II, da libertação da Polónia: Lech Walesa.
“Como a experiência polaca nos recorda, a defesa do Ocidente depende, em última instância, não só dos meios mas também da vontade do seu povo para triunfar. A questão fundamental do nosso tempo é se o Ocidente tem vontade de sobreviver”, afirmou Trump na histórica praça Krasinski, frente ao monumento à resistência polaca durante a ocupação nazi.
“A história da Polónia é a história de pessoas que nunca perderam a esperança, que nunca desistiram e que nunca esqueceram quem eram”, prosseguiu Trump. E acrescentou: “A nossa própria luta, em defesa do Ocidente, não começa no campo de batalha”, mas “começa nas nossas mentes, na nossa vontade e nas nossas almas”.
Trump elogiou a nação-mártir polaca, tantas vezes suprimida do mapa pelas apetências imperialistas dos seus vizinhos, a Alemanha e a Rússia, nomeadamente quando, por virtude do pacto von Ribbentrop-Molotov, foi sucessivamente invadida pelos exércitos nazi e soviético.
O regime comunista duraria até às primeiras eleições livres, em Junho de 1989, cinco meses antes da queda do muro de Berlim. Deste longo e doloroso processo de libertação, Donald Trump, destacou a acção decisiva de São João Paulo II, evocando a extraordinária vitalidade espiritual polaca. Como disse um mártir polaco, o bispo Miguel Kozal: “Pior do que uma derrota militar é o colapso do espírito humano”.
Sem liberdade, sem partidos ou sindicatos livres, sem direito à livre expressão, a Igreja católica foi a única instituição que apoiou e defendeu os polacos na sua luta contra o jugo soviético. Por isso, nos estaleiros de Gdansk, os mineiros em greve não só se confessavam publicamente como faziam questão que aí se celebrasse a Missa, por padres que pagaram com a vida a ousadia de dar apoio espiritual aos defensores da liberdade, como foi o caso de Jerzy Popieluszko, assassinado a 19-10-1984, pela polícia política do regime comunista polaco.
Na conquista da liberdade política e religiosa da Polónia, São João Paulo II foi determinante, como Trump teve a honestidade intelectual de reconhecer: “Quando, no dia 2 de Junho de 1979, um milhão de polacos encheu por completo a Praça da Vitória para a primeira Missa com o Papa polaco, todos os comunistas de Varsóvia devem ter percebido que, muito em breve, o seu regime opressivo se desmoronaria. Devem ter percebido isso no momento exacto em que, durante a homilia do Papa João Paulo II, um milhão de polacos, homens, mulheres e crianças, juntaram as suas vozes num clamor unânime. Um milhão de polacos que não exigiram bem-estar, que não pediram privilégios, mas que apenas disseram estas três simples palavras: Nós queremos Deus!”
Segundo o presidente dos Estados Unidos, “os polacos, os americanos e os europeus ainda gritam: Nós queremos Deus!”. Trump não só crê que assim é como também o disse diante de uma multidão que não cessava de o aplaudir, ao mesmo tempo que, repetidamente, vitoriava o seu nome.
O presidente norte-americano realçou ainda que “uma Polónia forte é uma bênção para a Europa, e uma Europa forte é uma bênção para o mundo” e frisou o compromisso do seu governo com a Polónia e com “uma Europa forte e segura”.
À Europa, mais do que dinheiro, riqueza ou armamento, falta espírito, falta alma. E, no nosso país, faltam estadistas que, conscientes da nossa história e identidade nacional, sejam capazes de galvanizar todas as vontades à volta de um ideal solidário que, sem demagogias nem nacionalismos serôdios, cumpra Portugal.
Fonte: Observador

15 de julho de 2017

A virtude do Patriotismo



Mas os nossos primeiros antepassados são pai e mãe. Não é pois fora de propósito dizer que o patriotismo começa pela reverência dos pais, esses elos vivos, esses nós entre dois mundos. A etimologia nem sempre é argumento; mas aqui, neste problema que hoje nos ocupa, a etimologia vale por definição. Pátria deriva de pai. Patriotismo deriva de uma lei natural que foi elevada à dignidade de mandamento divino: honrar pai e mãe [e outros legítimos superiores]. Patriotismo é pois a virtude da longa continuação e da grande fidelidade.

(...)

Sendo o patriotismo uma virtude moral anexa da justiça e inscrita na esfera do Quarto Mandamento, é óbvio, para os católicos, que não pode haver vida cristã perfeita onde faltar essa forma de piedade. Daí se segue que um católico não pode desinteressar-se do seu país, da sua história e dos seus destinos, sem trair um preceito.

Gustavo Corção, adaptado de «Patriotismo e Nacionalismo».


Fonte: Veritatis

13 de julho de 2017

O hat-trick de CR7

Que é uma mulher que aluga a sua barriga senão uma ‘proletária’, no sentido próprio do termo?! E que é o ‘pai’ do filho encomendado, senão um capitalista explorador?

Não, não se trata de mais uma proeza futebolística do famoso capitão da selecção nacional, mas da sua mais recente produção: dois rebentos, gémeos por sinal, a juntar ao filho que já tinha. Têm os três irmãos a infelicidade de serem todos filhos sem mãe, porque foram todos gerados pelo pai, por via da ‘maternidade de substituição’. No contrato de prestação de serviços de gestação, não terão faltado as habituais cláusulas de confidencialidade, bem como a renúncia a qualquer prerrogativa materna em relação às crianças geradas, mas depois cedidas, para sempre, ao multimilionário pai, que colecciona filhos como se fossem botas de ouro, ou outros troféus desportivos.
É provável que tudo se tenha passado de forma consensual: CR7 não tem propriamente problemas financeiros e não devem faltar mulheres saudáveis e disponíveis para conceber e gerar filhos ao ídolo futebolístico, a troco de uma generosa compensação. Muito embora os defensores das barrigas de aluguer as queiram gratuitas, como a lei portuguesa também exige, a verdade é muito diferente: não é por acaso que Cristiano Ronaldo se permite, pela segunda vez, este luxo. Aliás, não é crível que alguém, que não seja um familiar muito próximo, aceite trazer no seu seio, durante nove meses, um ser humano de que depois se vai desligar para sempre, a não ser que seja para isso generosamente remunerado. Aliás, só assim se explica que este procedimento seja acessível a um Cristiano Ronaldo, mas não a um qualquer cidadão que, como ele, também pretenda ter filhos, mas não tenha uma mulher que os possa conceber. Com efeito, não se conhece nenhuma mulher rica, europeia ou norte-americana, que tenha ‘arrendado’ a sua barriga a um casal de pobres camponeses paraguaios incapazes de ter geração, embora também os haja …
É curioso notar que, segundo as revistas ditas sociais, de que apenas conheço as capas, não faltam namoradas de turno ao flamante futebolista. São todas, como convém, jovens sofisticadas, de silhueta impecável, putativas vencedoras dos mais exigentes concursos de beleza. Não seria mais lógico que fossem elas as mães dos filhos de CR7?! Sim, claro, caso não fosse este um esquema de exploração feminina a que, obviamente, jamais se sujeitaria uma vampe namoradeira do multimilionário capitão da selecção nacional. Estas damas de companhia não estão dispostas à deformidade que a maternidade exige durante o tempo da gestação, sobretudo na sua fase final, mas uma pobre mulher não se pode permitir esses pruridos, nem recusar um tão rentável aluguer.
O proletariado está de novo na moda, entre nós pela mão da maioria socialista-bloquista e com a valiosa e substancial contribuição de duas dezenas de deputados do Partido Social Democrata que, nesta questão, se aliaram à geringonça, em vez de lhe fazerem, como era suposto, oposição. Os proletários, de tão triste memória durante a revolução industrial e que, em vão, o marxismo tentou reabilitar, eram, como o próprio nome indica, trabalhadores cuja principal riqueza era a prole: quantos mais filhos, mais braços – recordem-se as crianças miseravelmente exploradas nas minas – e, portanto, maior rendimento familiar. Que é uma mulher que ‘aluga’ a sua barriga senão uma ‘proletária’, no sentido próprio do termo?! E que é o ‘pai’ do filho encomendado, senão uma nova versão do capitalista explorador? Na realidade, mais não é do que um processo industrial, em que a mulher fica reduzida a um mero objecto, a uma peça na cadeia produtiva, ou reprodutiva, a que se recorre para a obtenção do filho e que, depois, se abandona e ignora. Pobres mulheres …
A mercantilização dos ventres femininos é já uma realidade, não obstante os partidários destas novas técnicas rejeitarem, em tese, qualquer intuito comercial. No Reino Unido, por exemplo, já se permite que a mulher gestante receba uma quantia de 15 mil libras, a título de compensação pela gestação. Nos Estados Unidos, onde há maior procura, praticam-se preços mais elevados: na Califórnia, cobram-se 100 mil dólares por esse serviço, mas na Índia pode-se conseguir uma barriga de aluguer por valores que vão dos 18 mil aos 30 mil dólares, dos quais só 8 mil chegam à ‘mãe de substituição’. Como em qualquer processo industrial, também nestas gestações há intermediários que exigem as suas comissões: um negócio, afinal, como qualquer outro.
Admiro em Cristiano Ronaldo a perícia a que chegou, com muito trabalho e dedicação, embora entenda uma saloiice dar o seu nome, que seria adequado para um estádio de futebol, ao aeroporto da Madeira (a propósito, na semana passada estive em Paris, no aeroporto Charles de Gaulle, que não era futebolista, e no de Amsterdão, que não se chama Johan Cruyff…). Mas, em relação a este processo industrial, CR7 não é, obviamente, o principal responsável: maior culpa é a de quem legalizou a mal-dita ‘maternidade de substituição’.
Em Portugal, segundo a lei da gestação de substituição (Lei nº 25/2016, que reformou a Lei 32/2006, sobre procriação medicamente assistida), “A celebração de negócios jurídicos de gestação de substituição só é possível a título excepcional e com natureza gratuita, nos casos de ausência de útero, de lesão ou de doença deste órgão que impeça de forma absoluta e definitiva a gravidez da mulher, ou em situações clínicas que o justifiquem” (Art. 8º, nº 2). E, no país vizinho, dois espanhóis que recorreram a uma barriga de aluguer para obterem gémeos, não os puderam registar como seus, por sentença de 6 de Fevereiro de 2014, do respectivo Supremo Tribunal de Justiça. Mas, nos Estados Unidos, de onde procedem os gémeos de CR 7, pelos vistos já se mandam fazer criancinhas ao gosto do freguês.
Só há um senão neste imbróglio: estes filhos não têm, nem nunca terão, mãe. Nada que, porém, não se possa compensar com bens materiais: ainda bem que as barrigas de aluguer são só para ricos!
Fonte: Observador

12 de julho de 2017

Monarquia, caução das democracias

Congresso da Causa Real_Aveiro.jpg

Vivemos tempos difíceis de transição para um mundo muito diverso daquele que conhecemos. Nesta preia-mar dos chamados “populismos” - fenómeno complexo que remete directamente para a grave crise de representação e legitimidade de que padecem regimes de partidos há muito instalados na esfera do poder, mas também de reacção à globalização que ameaça a identidade cultural dos povos – a reflexão sobre as vantagens da monarquia ganha consistência. A democracia, tal como a entendíamos, conhece dias difíceis, pelo que as críticas que lhe dirigem devem ser escutadas e os seus erros corrigidos.

A análise das últimas décadas reforça a nossa convicção de que a democracia deve ser limitada, vigiada e fiscalizada, dado transportar não apenas a pulsão totalitária a que Jacob Talmon se referia no seu clássico Origins of Totalitarian Democracy (1952), assim como padecendo de doenças degenerativas há muito apontadas pela escola italiana de Sociologia Política. Tanto aquela democracia messiânica, fundada na crença e comportando-se como uma tirania [benigna], tanto a deriva oligárquica podem ser corrigidas. Ora, pelo conselho da história, verifica-se que a única forma bem-sucedida de limitação dos abusos e excessos da democracia radica na aceitação do convívio da democracia com um poder não democrático - isto é, não eleito - que lhe lembre aquilo que não é passível de revisão.

A salvação da ideia, do método e da cultura democrática exige, pois, a intervenção de um poder que, não sendo democrático, é caução correctiva que impede a democracia de se matar. As monarquias sempre foram abertas à participação, à representação, à oposição de ideias e de interesses, pelo não houve monarquia pré-moderna que não se submetesse ao voto, à fiscalização e às sanções legais. Hoje, as monarquias ditas constitucionais (constitucionais sempre o foram na forma das constituições históricas que lembravam os limites e as obrigações do Rei) lembram ao transitório aquilo que é permanente. A democracia representa o homem; a monarquia representa a história e a memória que determina e alimenta a vontade dos homens em viverem juntos em sociedade. A democracia exprime a volubilidade das paixões humanas, o passageiro, o contingente; ou seja, é absolutamente humana e alimenta-se do sonho peregrino da justiça e igualdade para todos. A democracia é um admirável exercício de determinação, pelo que só há cidadãos onde estes podem, em concorrência, falar, escrever, opinar, criticar, eleger e legislar. Porém, a democracia é ruptura permanente e deve ser, sempre, disjuntiva, como as políticas o devem ser para que a governação não se afunde no ritualismo. Para atenuar o carácter turbulento inerente à democracia – ou a tendência para se transformar em oligarquia – é requerida a existência de um poder moderador. Esse poder moderador é-nos oferecido pela monarquia. A monarquia, entendida como contrato longo de estabilidade, anteparo da Política e inculcador de comportamentos conjuntivos pode, afinal, salvar a democracia, pelo que há que contestar quantos continuam a perseverar no erro trágico de a considerar inimiga da soberania popular.


Miguel Castelo Branco